Assistindo o filme “A Última Lição” (França, 2015), percebe-se uma questão interessante quanto à importância de o idoso manter-se em sua casa até o fim, quando dispõe de condições físicas e cognitivas que lhe permitam independência, mesmo relativa. Na história em questão, Madeleine (personagem de história real, soube ao final do filme) resolve dar fim à vida por perceber que já não domina certas condições de autonomia, aos 92 anos. Atrapalha-se no trânsito ao dirigir, esquece forno e fogão ligados, tem incontinência urinária, entre outras “falhas” de memória. Tendo sido uma ativista de direitos humanos, em especial por defender melhores condições de maternidades por ser obstetriz ao longo da vida profissional, já decidira que não queria esperar um fim degradante que exigisse cuidados especiais. A princípio a família desconsidera sua decisão mas, aos poucos, posiciona-se contra, embora a filha compreenda seus motivos e passe a acompanha-la mais assiduamente no tempo que restava. A questão que chamou a atenção foi o fato de ela destinar lembranças, objetos e móveis a diversas pessoas, desde parentes até amigos e vizinhos, julgando a continuidade de suas efetivas, e porque não dizer afetivas, funções.
Ao passar determinado período hospitalizada, a impessoalidade do lugar e a relação de amizade estabelecida com outro idoso igualmente acamado fez com que esses objetos se tornassem ainda mais significativos, pois representavam algo ou alguém importantes na sua vida. Esse significado remetia aos detalhes íntimos da sua vida, desde as manifestações políticas em que participara até relacionamentos amorosos marcantes. Portanto, o que se guarda ao longo da vida torna-se uma letra no texto das histórias pessoais, o que justifica que se dê a devida importância nesta última etapa vivida. A velhice é o momento em que se percebe claramente que há menos tempo pela frente e muito mais já passado, como disse Mário de Andrade, repleto de elementos preciosos para cada pessoa, no âmbito da sua privacidade.
A grande lição que a história nos deixa é a certeza de que nossa moradia guarda/protege/esconde nossa mais íntima memória, e sentir que não estaremos presentes para destinar cada objeto, pequeno ou grande, valioso ou não, pode angustiar um idoso próximo da morte. Se está guardado, é importante. Quem mais poderia avaliar isso além do próprio protagonista da história de toda uma vida? No caso específico, Madeleine morava sozinha num apartamento e contava com uma empregada fiel e amiga, além de um vizinho jovem, forte e atento. Mas a solução que talvez fosse a mais adequada, morar num residencial assistido, não era aceitável para ela, que preferia terminar a vida como a viveu, ativamente. Se aceitasse essa opção, certamente muitos dos seus objetos significativos deveriam acompanha-la, de modo a tornar a transição menos hostil à sua rotina. Vale a reflexão quando a família pretende decidir pelo idoso sem considerar a importância dos seus pequenos tesouros.


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