Ter amigos no bairro onde o idoso mora estimula a permanência e a participação social mais ativa?

Muitas vezes podemos ver idosos em duplas ou grupos em parques e praças, especialmente quando há mesas para jogos e bancos com relativo conforto para esses encontros. Além disso, pequenos comércios geralmente criam vínculos com compradores frequentes, oferecendo facilidades para entrega e atendimento atencioso mesmo em vendas de pouco valor, cativando pela atenção que dispensam. Passear com animais de estimação também pode gerar encontros significativos, tornando-se motivo para sair e frequentar a vizinhança. E se um morador idoso for obrigado a mudar, afastando-se desse ambiente rotineiramente familiar?

A história de “Harry e Tonto” (EUA, 1974) começa em Nova Iorque, onde um idoso viúvo com seu gato de estimação é obrigado a mudar-se, em função da demolição do edifício onde morava para a construção de um estacionamento. Apesar dos crescentes assaltos e trânsito caótico, sentia-se seguro no bairro pelas relações que mantinha com vizinhos e pequenos comerciantes, além do amigo com quem compartilhava notícias diariamente no banco da praça. Relembra o bairro com bondes e paralelepípedos, afirmando que “… se você conhece as pessoas, isto é um lar.” Na casa do filho, passa a viver os conflitos com a nora e os netos e, sentindo-se um estorvo, percebe que perdeu suas referências: “Um velho que perde sua casa é só um andarilho…” e decide visitar a filha em Chicago. Ao longo da viagem mantem contato constante com o filho, que se sente culpado por não ter conseguido oferecer melhor condição de moradia para o pai. A viagem é permeada por aventuras até o reencontro com a filha, que almeja tanta liberdade quanto ele e, portanto, decide seguir para Los Angeles, onde está seu outro filho, um sonhador sem dinheiro e interessado na permanência do pai para divisão de despesas. Ele então esclarece que cada um siga sua própria vida, especialmente porque ele pretende criar novos vínculos e, para isso, a independência seria fundamental. O filme termina com a morte do gato Tonto e a partir das novas experiências, possíveis pela disposição em travar novos relacionamentos.

A história oferece duas reflexões importantes: a companhia do gato, seu amigo indispensável ao qual é fiel, representa a manutenção de parte da própria história, apesar da mudança imposta. Igualmente significativa foi a demonstração de capacidade para estar aberto a novas perspectivas, representada pela decisão de não interferir na rotina da nora e outras circunstâncias, em especial a carona oferecida para uma adolescente que o acompanha em parte da viagem. Em ambas as questões fica evidente o amor pela liberdade, respeitando os limites do outro, mas mantendo a busca pela construção de novos vínculos significativos. Atividades ao ar livre podem ser oportunidades para o novo, mas mais do que isso, representam as conexões possíveis com a vizinhança, o que justifica a permanência com a criação de lugares de moradia. A ideia de lar pode ser resgatada mesmo em outros destinos, desde que haja estímulo para a participação ativa nesses lugares.

Respostas

  1. Avatar de Eduardormeyer

    Plenamente de acordo, e temos muito a desenvolver nesse campo das moradias para seniores.

    Curtir

    1. Avatar de Profª Maria Luisa Trindade Bestetti

      Sim, Eduardo, especialmente porque moramos além da unidade habitacional, moramos no bairro, na cidade! Agradeço pela participação…

      Curtir

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.