Acidentes domésticos são relativamente comuns e aceitáveis, porque geralmente o morador está relaxado e mais sujeito a distrações. Mas quando os riscos aumentam em função da fragilidade e as consequências funestas podem atingir o equilíbrio emocional de um idoso, a decisão sobre o que fazer passa a ser uma prioridade. Adotar algum sistema de cuidado, presencial ou virtual, é um modo de monitoramento possível antes da decisão de contratar um cuidador ou decidir a mudança para uma moradia institucional. Mas esta é a história do cientista inglês David Goodall, que aos 104 anos decidiu morrer.
De acordo com a matéria da jornalista Camila Appel, publicada na Folha de São Paulo de 10 de maio de 2018, aos 104 anos ele morreu através de um suicídio assistido, procedimento legal na Suíça. Justificava-se por não estar mais feliz com a vida, admitindo que sua saúde estava se deteriorando pois caíra em casa e permanecera no chão por dois dias até que a faxineira o encontrou. Além disso, mesmo sendo um profissional premiado e muito ativo, havia sido desligado da Universidade Edith Cowan em 2016, na Austrália, por ser considerado inapto para continuar o trabalho, embora essa decisão tenha sido revertida em seguida. Essas questões certamente afetaram sua autoestima, o que o colocou em busca da morte. Como não era possível isso na Austrália, procurou alternativas, encontrando resistências porque em geral o procedimento é aprovado para pessoas com doenças terminais e com expectativa de vida de até seis meses. A organização Life Circle aceitou a assistência pois concordou com seus argumentos, mas as controvérsias se fundamentam no risco de se adotar essa alternativa para evitar os altos custos do cuidado paliativo ou porque os pacientes podem ser pressionados pelos parentes para deixarem de ser um “fardo”, o que sugere necessárias discussões sobre os limites da ética.
A questão em foco, aqui, está relacionada ao momento de decidir quando morar sozinho e sem supervisão pode se tornar um problema, assim como em que medida é preciso decidir sobre mudanças, juntamente com o idoso. No caso do professor Goodall, ele mantinha as capacidades cognitivas mas perdera a força para reerguer-se após uma queda. Não menos grave do que isso teria sido a sensação de inutilidade profissional, o que retira objetivos e estabelece um afastamento de rotinas, criando um cenário de tristeza e insatisfação com a vida. A aposentadoria naturalmente já representa o fim de um ciclo, o que fragiliza o indivíduo pela sensação de falta de perspectiva, mesmo àqueles que programam atividades e preenchimento do tempo com outras ocupações. Mas há uma quebra de rotinas, e toda a mudança incomoda. A necessária adaptação pode gerar insegurança e o desejo de evitar frustrações, paralisando para novas iniciativas e criando uma zona de conforto onde há o risco da depressão. A insegurança física aos 102 anos levou Goodall a decidir pelo fim, ciente dos seus limites e da satisfação de uma trajetória de vida plena de resultados, optando pela própria dignidade de cometer o suicídio assistido dois anos depois.


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