Qual a importância de conhecer as impressões de idosos que residem em moradias institucionais?

A opção por moradias institucionais pode ser muito adequada para um idoso que more só ou que apresente fragilidades, especialmente quando a família tem dificuldades para dedicar-se ao cuidado. Mas é essencial que essa decisão seja discutida com ele, sob pena de muito sofrimento, pela ruptura com sua própria história e pelo estranhamento de ver-se em um lugar onde todos são desconhecidos. No livro “a máquina de fazer espanhóis” (Biblioteca Azul, 2016), assim mesmo com a maior parte dos textos em letras minúsculas, o autor Valter Hugo Mãe descreve a experiência do protagonista depois que fica viúvo:

a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher.

Sentiu-se despojado de seus pertences e abruptamente colocado num universo ao qual não pertencia, sentindo a hostilidade, talvez simples curiosidade, dos outros moradores. Soube que ocuparia o lugar de uma antiga moradora recém falecida, e isso o angustia.

é frequente que, nas primeiras semanas, alguém rejeite o novo residente, como se a urgência de este entrar operasse no cosmos uma pressa em tirar a vida do outro, e é como se isso fosse culpável.

Mais ainda, a dor das perdas o acompanha por muito tempo e a mudança lhe parece o próximo passo na direção da própria morte. Revoltado, assume um comportamento grosseiro, inclusive com os familiares, apesar dos esforços em integrá-lo no grupo para que participe das atividades rotineiras.

um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprende-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento.

Ao descrever o lugar como “o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido”, deixa claro que entende a distribuição dos dormitórios a partir da perspectiva do tempo de permanência: para os independentes, abriam-se janelas para o jardim, como que para estimular a participação social e a felicidade de estar ali. Mas para os mais frágeis as janelas eram voltadas para o cemitério, localizado no terreno vizinho… Define-se como um homem de família, afirmando não acreditar que “algum dia tenha sido suficientemente amigo de alguém”, sentindo-se deslocado porque não estava acostumado a viver entre amigos. E nesse novo contexto estava entre noventa e três pessoas, “sempre noventa e três velhos ali metidos”, além dos funcionários e visitantes eventuais. Compreender que a mudança é de fato brusca significa dimensionar o quanto é importante conhecer as impressões de idosos que residem em moradias institucionais, pois somente assim será possível inovar em propostas mais adequadas, em busca da verdadeira feliz idade.

Respostas

  1. Avatar de Eduardormeyer

    Sim é difícil essa integraçāo a um novo ambiente, é necessário que haja a vontade de se reinventar para uma “nova vida”. Quando acontece como no livro, que esta situaçāo acontece após uma grande perda, tudo fica ainda mais complicado! Mas, reinventar-se é preciso sempre!

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    1. Avatar de Profª Maria Luisa Trindade Bestetti

      Essa é a mensagem do nome Ser Modular: é preciso flexibilidade e não apenas resiliência. Estar aberto a mudanças, assim os impactos ficam menos dolorosos e o tempo para aproveitar, ao invés de se preocupar, fica bem mais interessante.

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