Por Ciro Férrer
O envelhecimento da população tem ampliado o interesse científico sobre a relação entre neurodiversidade e curso da vida, especialmente no que diz respeito às mudanças cognitivas, funcionais e psicossociais que ocorrem em pessoas neurodiversas ao longo do envelhecimento. Apesar do crescente reconhecimento dessa temática, as evidências científicas ainda permanecem limitadas. Há mais de uma década, pesquisadores vêm destacando a necessidade de compreender os efeitos do envelhecimento sobre indivíduos neurodiversos, bem como suas demandas específicas de cuidado, participação social e qualidade de vida.
A escassez de evidências sobre as repercussões do envelhecimento em diferentes perfis da neurodiversidade reforça a necessidade de abordagens interdisciplinares que integrem saúde pública, gerontologia, neurociências, arquitetura, desenho urbano e políticas de inclusão.
Da infância à velhice: uma trajetória pouco estudada
Durante muitos anos predominou a ideia de que crianças com condições do neurodesenvolvimento superariam suas dificuldades ao longo da vida. Essa compreensão contribuiu para que praticamente inexistissem serviços voltados ao atendimento de adultos neurodiversos.
Nas últimas décadas, entretanto, esse cenário começou a mudar. Observa-se um crescimento expressivo do número de diagnósticos realizados após os 40 anos de idade, incluindo indivíduos na quinta, sexta e até sétima décadas de vida. Paralelamente, pessoas diagnosticadas ainda na infância passaram a envelhecer, trazendo novas demandas relacionadas à saúde física, saúde mental, funcionalidade e participação social.
Também aumentou significativamente o reconhecimento de mulheres anteriormente subdiagnosticadas ou erroneamente classificadas durante a infância, refletindo uma compreensão mais abrangente da variabilidade das manifestações da neurodiversidade.
O aumento da conscientização sobre a neurodiversidade tem impulsionado a demanda por serviços especializados, resultando em extensas filas de espera para o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Em diversas regiões do mundo, entretanto, permanecem inexistentes ou insuficientes os serviços voltados a outras condições neurodiversas, como o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC/Dispraxia) e os Transtornos da Comunicação.
Esse cenário torna-se ainda mais desafiador quando se trata de pessoas adultas e, sobretudo, da população idosa, para a qual o reconhecimento da neurodiversidade ainda é recente. Nessa faixa etária, persiste um longo caminho a ser percorrido na superação dos estigmas associados ao idadismo, na capacitação de profissionais aptos a reconhecer as manifestações da neurodiversidade ao longo do envelhecimento e no desenvolvimento de estratégias que favoreçam a compreensão e a ressignificação de diagnósticos tardios.
Da mesma forma, torna-se imprescindível ampliar a oferta de serviços especializados não apenas na área da saúde, mas também em campos como a arquitetura, o urbanismo, o design e a construção civil, incorporando os princípios do(a):
- Desenho inclusivo (Inclusive Design): seu princípio consiste em observar as limitações e potencialidades de indivíduos com necessidades específicas para desenvolver soluções capazes de ampliar a usabilidade, a funcionalidade e a acessibilidade para toda a população. Conforme Clarkson e colaboradores (2003), parte-se do pressuposto de que, ao atender às demandas daqueles que enfrentam as maiores barreiras de uso, o projeto torna-se mais eficiente, seguro, intuitivo e confortável para todos os usuários, independentemente de idade, condição funcional ou perfil cognitivo;
- Acessibilidade Emocional: corresponde à capacidade do ambiente construído de favorecer experiências afetivas positivas, reduzindo estados de estresse, ansiedade, medo, confusão e sobrecarga sensorial, ao mesmo tempo em que promove sentimentos de segurança, pertencimento, autonomia, previsibilidade, identidade e bem-estar (Duarte; Cohen, 2018). Essa abordagem reconhece que a acessibilidade envolve também a forma como os espaços influenciam as emoções, os vínculos sociais e a saúde mental de seus usuários na concepção de ambientes capazes de responder às necessidades sensoriais, cognitivas, comportamentais e funcionais dessa população ao longo de todo o curso da vida.
Neurodiversidade ao longo do ciclo vital
Atualmente, reconhece-se que não existe um perfil único de pessoa neurodiversa. As manifestações comportamentais, cognitivas e sensoriais variam amplamente entre indivíduos, assim como suas oportunidades de desenvolvimento, experiências sociais e estratégias de adaptação.
Além disso, diferentes condições do neurodesenvolvimento frequentemente coexistem, tornando inadequada a compreensão baseada em diagnósticos isolados. A elevada sobreposição entre características autísticas, dificuldades motoras, alterações atencionais e distúrbios da comunicação reforça a necessidade de abordagens integradas.
Receber um diagnóstico apenas na vida adulta ou durante a velhice frequentemente representa um processo de reconstrução da própria história. Muitos indivíduos passaram décadas desenvolvendo mecanismos de compensação e mascaramento para atender às expectativas sociais, enquanto outros conviveram por anos com diagnósticos equivocados. Nessas circunstâncias, o diagnóstico tardio pode suscitar sentimentos ambivalentes, incluindo alívio, tristeza, frustração e luto pelas oportunidades perdidas.
Comorbidade e saúde mental
A neurodiversidade raramente ocorre de forma isolada, estando frequentemente associada a transtornos como ansiedade e depressão, especialmente entre pessoas autistas, com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC). Apesar disso, a formação de profissionais que atuam no cuidado à pessoa idosa ainda aborda de maneira limitada as especificidades da neurodiversidade, dificultando seu reconhecimento e o desenvolvimento de intervenções individualizadas. Esse cenário torna-se ainda mais complexo diante da elevada carga de doenças crônicas e limitações funcionais observadas na população idosa brasileira.
Dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) evidenciaram que 34,4% dos idosos (cerca de 11 milhões de pessoas) apresentam hipertensão arterial, importante fator de risco para acidente vascular cerebral, demência vascular e outras doenças cardiovasculares. Além disso, 20,4% (aproximadamente 6,5 milhões) possuem dificuldades para realizar atividades básicas da vida diária, percentual que aumenta de forma expressiva após os 80 anos e é mais elevado entre as mulheres.
Esses achados reforçam a necessidade de abordagens integradas, capazes de considerar simultaneamente a neurodiversidade, o envelhecimento, as doenças crônicas e as limitações funcionais no planejamento do cuidado e do ambiente construído.
Neurodiversidade e risco de demência
Uma das questões emergentes refere-se à possível associação entre neurodiversidade e doenças neurodegenerativas. Evidências recentes sugerem que pessoas autistas com 65 anos ou mais podem apresentar risco aproximadamente 2,6 vezes maior de desenvolver demência quando comparadas à população geral.
Esses achados reforçam a necessidade de compreender como as características neurodiversas se manifestam durante o envelhecimento e de que maneira podem influenciar processos de reserva cognitiva, vulnerabilidade cerebral e adaptação funcional.
Embora o autismo costume ser identificado na infância, cresce o número de diagnósticos realizados apenas na idade adulta ou na velhice. Nesses casos, o reconhecimento tardio pode representar importante fator de promoção da saúde mental, permitindo reinterpretar experiências anteriores, reduzir o estresse decorrente do mascaramento social e fortalecer o senso de identidade.
Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC)
Pessoas com Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação apresentam maior frequência de acidentes, dificuldades de equilíbrio e alterações na coordenação motora desde a infância. Entretanto, pouco se conhece sobre a evolução dessas características durante o envelhecimento.
Considerando que quedas representam uma das principais causas de incapacidade funcional entre pessoas idosas, torna-se plausível supor que indivíduos com alterações motoras preexistentes apresentem vulnerabilidade ainda maior.
Esse cenário pode tornar-se mais complexo diante da associação com doenças osteoarticulares, como artrite reumatoide, ou com condições frequentemente relacionadas ao TDC, como a síndrome da hipermobilidade articular. Esses fatores reforçam a importância de estratégias preventivas voltadas ao fortalecimento muscular, treinamento do equilíbrio e manutenção da estabilidade postural ao longo de toda a vida.
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)
Estudos recentes demonstram que o TDAH não tratado está associado ao aumento da ocorrência de acidentes durante todo o ciclo vital. Embora pesquisas indiquem que adultos em torno dos 60 anos apresentem qualidade de vida semelhante à observada em indivíduos mais jovens com TDAH, ainda são escassos os estudos que acompanham pessoas nas décadas subsequentes, justamente quando surgem alterações relacionadas ao envelhecimento cerebral.
Outro aspecto que vem despertando interesse científico refere-se à influência das alterações hormonais da menopausa sobre mulheres com TDAH. Apesar dessa crescente atenção, as evidências disponíveis ainda permanecem limitadas.
Também preocupa o elevado subdiagnóstico em idosos. Estudos mostram que a probabilidade de um adulto receber diagnóstico de TDAH diminui progressivamente com o avanço da idade, sugerindo que inúmeras pessoas envelhecem sem que suas características sejam reconhecidas pelos serviços de saúde.
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
O envelhecimento de pessoas autistas representa um campo de investigação relativamente recente. Questões relacionadas ao acesso aos serviços de saúde, às dificuldades sensoriais presentes nos ambientes hospitalares, à comunicação com profissionais e à organização dos sistemas de cuidado ainda permanecem pouco exploradas.
Outro desafio crescente refere-se ao envelhecimento simultâneo de pais e filhos autistas, situação que amplia a preocupação com redes de apoio, planejamento dos cuidados de longa duração e continuidade da assistência.
No Brasil, dados da pesquisa Invisible Aging: Self-Reported Autism Spectrum Disorder in Older Adults in Brazil and the Challenges of Late Recognition, desenvolvida pela geriatra Uiara Ribeiro e pela fisioterapeuta Cristina Baena, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), estimam que mais de 300 mil brasileiros com 60 anos ou mais se autodeclaram dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), correspondendo a uma prevalência aproximada de 0,86% nessa faixa etária. Esses dados não indicam um aumento recente da ocorrência do autismo entre pessoas idosas, mas refletem, sobretudo, o reconhecimento tardio de uma condição que permaneceu invisibilizada durante grande parte da vida.
Impulsionados pela ampliação do acesso à informação, pelo avanço dos critérios diagnósticos e pelo maior conhecimento sobre as diferentes manifestações do espectro, diversas pessoas idosas passaram a identificar características que, durante décadas, foram interpretadas apenas como “excentricidade”, “timidez excessiva”, “isolamento social”, “rigidez comportamental” ou “dificuldades de convivência”. O diagnóstico tardio, portanto, representa não o surgimento da condição, mas a possibilidade de reinterpretar experiências acumuladas ao longo da vida mediante ao conhecimento científico contemporâneo.
Neurociência, Arquitetura e Inclusão: como projetar um ambiente responsivo à neurodiversidade
O avanço das pesquisas sobre neurodiversidade também evidencia a necessidade de repensar o ambiente construído sob a perspectiva da neurociência aplicada à arquitetura e ao próprio design inclusivo. Embora grande parte dos espaços seja projetada para um usuário considerado “padrão”, pessoas neurodiversas frequentemente apresentam formas distintas de perceber, interpretar e responder aos estímulos ambientais.
Ambientes com excesso de ruído, iluminação intensa, padrões visuais complexos, sinalização ambígua ou elevada carga sensorial podem aumentar a sobrecarga cognitiva, favorecer estados de ansiedade, dificultar a orientação espacial e comprometer a autonomia, especialmente durante o envelhecimento, quando alterações sensoriais e cognitivas tornam-se mais frequentes.
Nesse contexto, a neurociência aplicada à arquitetura responsiva à neurodiversidade propõe o desenvolvimento de espaços capazes de se adaptar às necessidades cognitivas, sensoriais e funcionais dos usuários. Essa abordagem fundamenta-se em princípios do design baseado em evidências (evidence based design), das neurociências cognitiva e comportamental, da ergonomia, da psicologia ambiental e da gerontologia ambiental, buscando criar ambientes que reduzam a sobrecarga sensorial, favoreçam a previsibilidade espacial, ampliem a legibilidade do ambiente e fortaleçam a orientação, a autonomia e a sensação de segurança.
Entre as estratégias recomendadas destacam-se o uso de layouts intuitivos, contrastes cromáticos adequados, iluminação circadiana, conforto acústico, controle de estímulos distratores, sinalização clara, marcos referenciais facilmente identificáveis e organização espacial que favoreça tanto a navegação espacial. Essas intervenções mostram-se particularmente relevantes para pessoas autistas, indivíduos com TDAH, pessoas idosas com comprometimento cognitivo leve e pessoas com demência, contribuindo para preservar a funcionalidade, reduzir episódios de desorientação e promover maior bem-estar.
O Quadro 1 apresenta um conjunto de oito princípios fundamentais para o planejamento, o projeto e a gestão de ambientes construídos responsivos à neurodiversidade.

Quadro 1. Estratégias para o planejamento de espaços responsivos à Neurodiversidade. Fonte: Albuquerque e Ribeiro (2025). Adaptado pelo autor (2026).
Esses princípios, representados na Figura 1, partem do reconhecimento de que cada indivíduo possui um perfil cognitivo, sensorial e comportamental singular, cujas necessidades podem se modificar ao longo do ciclo de vida.

Figura 1. Estratégias para a concepção de espaços responsivos à neurodiversidade: (1) diversidade de espaços e privacidade; (2) promoção do movimento e da mobilidade; (3) Tratamento acústico; (4) Iluminação e ventilação; (5) integração de elementos naturais com diferentes níveis de contato direto e indireto; (6) esquema cromático e estímulos visuais; (7) microambientes e navegação espacial; (8) bem-estar, saúde e suporte ocupacional; (9) estilo de vida saudável e equilíbrio ocupacional. Fonte: Autoral (2026).
Da mesma forma que o envelhecimento promove alterações neurofisiológicas, perceptivas e funcionais, as características associadas à neurodiversidade — como padrões de hiper ou hipossensibilidade sensorial, processamento cognitivo e respostas comportamentais — também podem sofrer transformações decorrentes da idade, das experiências vividas, das condições de saúde e das interações com o ambiente.
Nesse contexto, o ambiente construído deve ser concebido como um sistema dinâmico, capaz de responder a essas mudanças por meio de soluções flexíveis, adaptáveis e centradas na pessoa. Essa perspectiva converge com os princípios do Aging In Place ao reconhecer que os espaços devem acompanhar as transformações funcionais, cognitivas e sensoriais dos seus usuários, promovendo autonomia, segurança, bem-estar, inclusão e qualidade de vida durante todo o curso da vida.
Considerações Finais
O envelhecimento da população neurodiversa exige uma mudança de paradigma nas pesquisas e nas políticas públicas. Mais do que compreender diagnósticos específicos de forma isolada, torna-se necessário adotar uma perspectiva integrada, considerando as interações entre cérebro, corpo, ambiente construído, saúde física, cognição e contexto social ao longo de todo o ciclo vital. Essa abordagem sistêmica favorece a construção de estratégias de cuidado mais personalizadas e fundamenta o desenvolvimento de cidades, edificações e serviços capazes de responder à crescente diversidade funcional e cognitiva da população idosa.
Essa perspectiva converge com os princípios da Neurociência aplicada à Arquitetura, do Desenho Universal e da Gerontologia Ambiental, que compreendem o ambiente como um agente capaz de promover a autonomia, a participação social e a saúde ao longo do envelhecimento.
Referencias bibliográficas
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Ciro Férrer
Arquiteto e urbanista, mestre em Arquitetura. Realiza pesquisas nas áreas de envelhecimento humano, saúde cognitiva, planejamento urbano e neuroarquitetura.
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