Por Martin Henkel – Projetar um Senior Living é projetar uma moradia para uma vida que ainda não aconteceu.
Essa foi uma das premissas que orientou a participação da SeniorLab na concepção de um empreendimento na região do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul. Em vez de olhar apenas para o residente que hoje ocupa empreendimentos desse tipo, ampliamos o horizonte de observação: quem é esse consumidor, como vive, o que valoriza e, principalmente, como poderá ser o residente daqui a 10 e 20 anos?
A questão é relevante porque existe uma defasagem inevitável entre conceber e ocupar um empreendimento. Entre estudos, projeto, aprovação, construção, comercialização e início da operação, podem transcorrer cinco, seis ou até sete anos.
Quem projeta olhando apenas para o presente pode inaugurar um empreendimento já desconectado de seu futuro residente. Por isso, mais do que identificar necessidades atuais, o trabalho buscou compreender transformações de comportamento, expectativas e relações familiares que deverão influenciar a decisão de morar em um Senior Living.
Cada região apresenta desafios e oportunidades que precisam exploração profunda e entendimento. O resultado não foi abandonar a arquitetura tradicional desses empreendimentos, mas ampliar seu significado. Duas decisões ilustram essa abordagem.
A primeira foi a criação de um Espaço Gourmet para celebrações familiares. Não é simplesmente mais uma área de convivência. É o reconhecimento de que mudar de residência não significa mudar de família. Aniversários, Natal, almoços de domingo e encontros com filhos, netos e amigos continuam fazendo parte da vida. Uma moradia para a longevidade precisa oferecer condições para que essas relações continuem acontecendo dentro dela.
A segunda foi a criação de um espaço de brincar para netos e bisnetos. Um parquinho pode parecer, à primeira vista, um elemento estranho em um Senior Living. É justamente aí que está sua força conceitual. Ele introduz a dimensão intergeracional na arquitetura e transforma a visita das crianças em experiência de convivência, e não apenas em uma passagem pelo espaço do avô ou da bisavó.
São decisões simples, mas reveladoras de uma mudança de perspectiva. Senior Living não deve ser pensado como um lugar para onde pessoas mais velhas vão morar. Deve ser pensado como um lugar onde elas continuam vivendo.
Isso significa superar a ideia de uma “arquitetura para idosos” e avançar para uma “arquitetura preparada para a longevidade”. A primeira procura responder às limitações e necessidades conhecidas. A segunda procura antecipar comportamentos, desejos, relações e formas de viver que ainda estão se formando.
Na Economia Prateada, talvez essa seja uma das diferenças mais importantes entre construir para o presente e construir para o futuro. Porque o residente que ocupará aquele apartamento daqui a cinco, dez ou mais anos não será exatamente o mesmo consumidor que estamos observando hoje.
A boa arquitetura de longevidade e o Aging in Market, conceito desenvolvido em 2016 por mim, começam justamente quando conseguimos projetar para um cliente bem antes que ele chegue.

Martin Henkel
Especialista em publicidade e marketing, professor, consultor e escritor. É fundador do Senior Lab.
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