Quando a habitação custa muito ao morador idoso

Por Maria Luisa Bestetti – Recentemente, a expulsão de uma senhora espanhola da sua moradia por 70 anos tornou-se motivo de muitos protestos, tanto pela falta de humanidade dos responsáveis pela empresa que adquiriu o imóvel quanto pela dificuldade dessa moradora idosa em mantê-lo, visto o aumento exorbitante do aluguel. Maricarmen Abascal (foto em destaque), de 87 anos, foi vítima da crise habitacional do seu país, fato que tem sido percebido em grandes cidades de diversos outros países do mundo, não sendo diferente em São Paulo. O principal motivo dos manifestantes foi essa contradição: como a falta de imóveis para alugar por períodos longos forçou a alta dos preços, vistos os ganhos com aluguéis de curto prazo em função do turismo na Espanha?

A consequência imediata é a expulsão de moradores de longa data, proprietários que passam a ter dificuldades na manutenção dos seus imóveis. Ao renderem-se à especulação imobiliária, que por um lado poderia ser uma solução para estender o tempo de uso, esse movimento culmina em alta de preços não somente do aluguel, mas de valores de condomínio, de produtos comercializados na região e da gentrificação resultante dessa mudança de valores da região, ao trocar a população original por novos moradores que suportam preços mais altos.

Motivos para as mudanças

A estratificação social das populações tem mudado criticamente nas últimas décadas. A dependência do petróleo criou muitas alterações na economia, provocadas por guerras, mudanças climáticas, movimentos migratórios decorrentes de perseguições étnicas e pela velocidade das informações que potencializaram fraudes e golpes. A tecnologia da informação apresentou-se como um avanço para o aperfeiçoamento dos negócios, oferecendo mais produtos a mais pessoas e em todos os lugares. Porém, junto com esse movimento veio a oportunidade que desperta a ambição, e a consequente injustiça social.

O caso da espanhola idosa representa o sofrimento de muitos que alcançaram a propriedade de um imóvel para chamar de seu e sentir-se protegido, embora isso represente o necessário investimento para manutenção que nem sempre é proporcional aos ganhos reais dessas pessoas. A chegada de plataformas mundiais para aluguéis de curta duração, no início, confrontou as estadias em hotéis pela real economia e flexibilidade de manter hábitos rotineiros que seriam impossíveis em instalações hoteleiras. A seguir, passaram a ditar os interesses dos investidores do mercado imobiliário, ao criar empreendimentos direcionados ao turismo de todos os tipos. Nesse momento, o que se vê é um excesso de oferta de apartamentos compactos, em edifícios que reformulam o entorno ao provocarem a chegada de empreendimentos comerciais e de serviços para o suporte desses moradores transitórios.

Se antes ter um imóvel próprio significava ter uma velhice segura, hoje o mercado de aluguéis prova ser mais conveniente pela possibilidade de mudanças profissionais, de novos arranjos familiares e de soluções descartáveis, sem apego ao lugar durante boa parte da vida adulta. A adesão a condomínios especializados, considerando uma classe econômica que alcança seus preços, seduz muitos casais ou pessoas idosas que desejam morar com mais praticidade na perspectiva de uma vida mais longa e ativa.

Alternativas para ajustar esse desequilíbrio

O caso de Maricarmen Abascal promoveu muitas discussões sobre como tem sido encaminhadas essas situações. Lá, o fundo UrbaGestion comprou o apartamento onde ela morava, vendido para minimizar a falta de recursos para a manutenção de uma vida digna. Depois da manifestação intensa pelos direitos de permanência de moradores idosos, foi oferecido um acordo onde essa moradora voltará a morar no apartamento de onde foi arrancada a força e passa a “pagar 30% de sua aposentadoria durante os próximos oito anos, o equivalente a cerca de € 500 por mês, um valor semelhante ao que ela pagava antes do despejo”, conforme noticiado pela redação do G1 em 29/09. Por outro lado, o governo da Espanha empenha-se em oferecer medidas que possam evitar situações semelhantes no futuro.

O mercado imobiliário especula através de oportunidades que o fluxo turístico apresenta, motivo pelo qual há tantos lançamentos de edifícios onde investidores mantém cadastro no Airbnb, inflando os preços de aluguéis e alterando características residenciais de muitos bairros. Se isso pressiona proprietários que vivem há muito tempo em suas residências, a ilusão de que a venda pode oferecer uma vida mais confortável pode resultar em frustração quando percebem que as mudanças “para melhor” custam mais caro, transformando os problemas antigos em novos. Assim, é preciso pensar em novos caminhos, sendo que as propostas de condomínios para pessoas idosas ainda atendem uma população com maior lastro financeiro e, se necessário, há moradias de longa duração para cuidados mais intensivos.

Caminhos possíveis

Tenho acompanhado pesquisas que indicam caminhos promissores para alternativas que consideram soluções de moradia colaborativa para pessoas idosas. A arquiteta Rosângela Rachid tem demonstrado a possibilidade de que se criem grupos com desejos e necessidades semelhantes para criar empreendimentos de cohousing sênior, cuja principal característica é a autogestão e o espírito de compartilhamento dos espaços comuns, tornando a moradia mais racional e sustentável. Não são necessárias áreas muito grandes e a preparação do grupo é fundamental. Compras podem ser coletivas, eletrodomésticos podem ser compartilhados, a presença de vizinhos conhecidos garante que não haverá solidão e que há suporte para determinadas emergências. Mas nem sempre é fácil reunir pessoas dispostas a colaborar, principalmente por resistirem à tentativa de viver em comunidade intencional.

Outra solução está em desenvolvimento na Espanha e estamos envolvidas com seu desenvolvimento, pois há a perspectiva de trazer ao Brasil, ajustando às nossas características culturais. Chamada ProAging, a proposta visa acomodar pessoas idosas proprietárias de imóveis que vivem sós e que não têm recursos suficientes para mantê-lo. Nesse caso, seriam reunidos em pequenos grupos para viverem em coliving, considerando a presença de um cuidador a depender da necessidade. Os imóveis seriam alugados em contratos de longo prazo, garantindo recursos financeiros aos componentes do grupo e o afastamento da solidão.

Enfim, precisamos continuar em busca de alternativas de moradias, especialmente para a população da chamada classe média que perde, a cada ano, mais poder de compra e a casa própria já não oferece a segurança necessária para uma vida digna. Somente pesquisas sérias geram soluções factíveis e eficazes, sem maquiagem, promessas ilusórias e resultados frustrantes e, portanto, vamos em frente nesta busca por novas perspectivas.

Maria Luisa Trindade Bestetti
Arquiteta e professora de Gerontologia. Idealizadora do Ser Modular, pesquisa e escreve sobre moradia, arquitetura, cidades e envelhecimento.

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