Por Camila Rocha – Quem mora ao nosso lado? Talvez essa seja uma pergunta mais importante do que parece. Ao longo da vida, construímos diferentes relações de afeto, convivência e cuidado. Família, amigos, parceiros, colegas de trabalho e, também, vizinhos podem compor uma rede que ganha ainda mais importância nos momentos em que precisamos de ajuda.
O Brasil já tem 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, que representam 15,8% da população (IBGE, 2022) Ao mesmo tempo, o número de pessoas que vivem sozinhas também cresce: 13,7 milhões de brasileiros moravam sozinhos em 2022, o equivalente a quase uma em cada cinco unidades domésticas do país.
Esses números ajudam a colocar uma questão no centro do debate sobre longevidade: quem está por perto quando precisamos de apoio?
O vizinho ocupa um lugar particular nessa rede. É alguém que está perto. Alguém que pode perceber quando alguma coisa não está bem, receber uma chave, acompanhar uma ida ao serviço de saúde, ajudar em uma situação inesperada ou simplesmente bater à porta para perguntar: “Está tudo bem?”. São pequenos gestos que, ao longo do tempo, podem transformar proximidade territorial em vínculo e cuidado.
Essa relação pode ser especialmente importante quando pensamos no envelhecimento. Para quem deseja permanecer no mesmo território ao longo da vida, preservar os vínculos de vizinhança significa também preservar possibilidades de suporte no futuro. Afinal, envelhecer no lugar onde construímos nossa história pode ser uma experiência muito diferente quando conhecemos, e somos conhecidos pelas pessoas que vivem ao nosso redor. Mas as formas como estamos construindo nossas cidades também interferem nessas relações.
Quando a verticalização também verticaliza as relações
Em São Paulo, a verticalização dos espaços de moradia é cada vez mais presente. Em muitos prédios, dezenas ou centenas de pessoas vivem muito próximas fisicamente, mas podem permanecer distantes socialmente. Moram na mesma torre, compartilham elevadores, garagens e áreas comuns, mas muitas vezes não sabem sequer o nome de quem vive na porta ao lado.
Isso nos convida a pensar: estamos construindo cidades que aproximam as pessoas ou apenas edifícios que aproximam os apartamentos?
A rede de suporte social não se constrói somente quando a necessidade aparece. Ela é resultado de relações que são cultivadas ao longo do tempo. Um “bom dia” no corredor, uma conversa na calçada, uma ajuda eventual ou a participação em atividades do bairro podem parecer acontecimentos simples, mas são também formas de construir pertencimento e confiança.
Entre portas e vínculos: a força da vizinhança
Essa perspectiva está presente na Escala de Rede de Suporte Social de Idosos (ERSSI), instrumento desenvolvido no Brasil para compreender as redes de suporte social de pessoas idosas a partir de diferentes dimensões de suas relações. Entre essas dimensões estão família, amigos e vizinhos. Nas evidências de validade da escala, a rede de vizinhos aparece como uma dimensão de importante acesso ao suporte, mostrando que aquilo que acontece do outro lado da porta também pode fazer parte da nossa rede de cuidado.
Pensar nos vizinhos, portanto, é pensar em envelhecimento, território e cuidado. É reconhecer que uma rede de suporte não é formada apenas por quem possui laços de parentesco, mas também por aqueles que compartilham conosco um pedaço da vida cotidiana.
Talvez seja hora de olhar novamente para a porta ao lado?
Porque, quando pensamos em longevidade, uma das perguntas mais importantes não é apenas onde vamos morar quando envelhecermos, mas também quem estará por perto quando precisarmos.

Não para invadir a vida de quem mora perto, mas para reconhecer que viver em comunidade também significa criar possibilidades de encontro, confiança e solidariedade.
Em uma sociedade que envelhece, fortalecer os vínculos de vizinhança pode ser uma estratégia simples e ao mesmo tempo poderosa para ampliar as redes de suporte social e favorecer um envelhecimento com mais autonomia, segurança e pertencimento.
Afinal, a longevidade não acontece apenas dentro de nossas casas. Ela acontece nos territórios onde vivemos, nas ruas que percorremos, nos lugares que frequentamos e nas relações que construímos.
Por isso, quando pensamos em envelhecer, talvez a pergunta não seja apenas: “Onde vou morar quando ficar mais velho?” Mas também: “Quem estará por perto quando eu precisar?”
Às vezes, essa rede começa muito mais perto do que imaginamos: na porta ao lado.

Camila Rocha
Assistente Social
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