Rosangela Rachid ICIC25 em Lisboa, Portugal.

Entre palestras, azulejos e inspirações: minha experiência no ICIC25, em Lisboa

Sênior Cohousing: Como transformar uma pesquisa sobre cuidado em um diálogo que atravessa fronteiras?

Essa foi a pergunta que levei comigo na bagagem ao embarcar para Lisboa, em maio de 2025, rumo ao ICIC25 – The 25th International Conference on Integrated Care. Uma pergunta simples na forma, mas profunda em suas camadas.

Participar de um dos maiores encontros internacionais sobre cuidado integrado em saúde apresentando meu trabalho sobre Sênior Cohousing foi, sem dúvida, um marco na minha trajetória como arquiteta, pesquisadora e cidadã que acredita na potência do coletivo.

Foi um momento de grande alegria e, confesso, também de certo frio na barriga. Ver um trabalho ao qual me dediquei profundamente ser selecionado em duas modalidades foi motivo de orgulho — e de responsabilidade. Apresentei ali não apenas um modelo de moradia, mas um convite à reflexão: como podemos viver (e envelhecer) juntos de forma mais digna, autônoma e colaborativa? Como o espaço, o convívio e o cuidado mútuo podem redesenhar o sentido de pertencimento na velhice?

Em meio a representantes da OMS, gestores, especialistas, acadêmicos e profissionais de diversas partes do mundo, percebi que minha pesquisa estava em sintonia com um movimento maior: o de redesenhar os sistemas de cuidado a partir de valores humanos, interdependência e inovação social. O cohousing, com sua proposta de convivência intencional e apoio mútuo, apareceu de forma direta e indireta em diversas falas, reforçando que esse debate é global — e urgente.

Centro Cultural Belém: quando a arquitetura também cuida

Como arquiteta, não posso deixar de mencionar o quanto foi simbólico participar de um evento como esse em um local tão especial: o Centro Cultural de Belém (CCB). O espaço, projetado pelos arquitetos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, é um verdadeiro marco da arquitetura contemporânea portuguesa.

Localizado às margens do Tejo, o Centro Cultural de Belém impressiona não apenas pela monumentalidade das formas, mas principalmente pela inteligência dos espaços, pela luz natural que atravessa suas galerias, e pela forma generosa como estimula o encontro entre o público e o espaço construído. É um lugar que respira cultura e que, de forma quase poética, traduz os princípios do próprio evento: integração, acessibilidade, fluidez e encontro.

Durante os intervalos das atividades — ou mesmo entre uma conferência e outra — era possível caminhar pelos pátios, sentir o vento vindo do rio, observar o vai e vem das pessoas, e refletir sobre como a arquitetura pode (e deve) ser aliada de modelos de cuidado mais humanos e inclusivos.
O prédio, com sua presença forte e ao mesmo tempo acolhedora, parecia dialogar com os temas debatidos ali dentro: acessibilidade, integração, convivência, pertencimento, cuidado.

Um verdadeiro presente, comprovando que os espaços têm poder sobre nossa experiência de vida — e que não são meros cenários. A escolha do Centro Cultural de Belém para sediar uma conferência sobre cuidado e integração reafirma, na prática, aquilo que tanto defendemos na teoria: bons espaços cuidam da gente, sem que a gente perceba.

O novo cuidado nasce em rede: vínculos que sustentam o envelhecimento

Foi impossível não se impactar com a força das falas que destacaram as abordagens de cuidados baseadas na comunidade. Ficou muito claro que, em diversos contextos, cresce a compreensão de que o cuidado precisa estar ancorado em redes — de vizinhança, de afeto, de pertencimento. Não se trata mais apenas de assistência prestada por instituições ou especialistas, mas de um compromisso cotidiano, descentralizado e construído com a participação ativa das pessoas e dos territórios.

Essa perspectiva ressoa profundamente com o que venho pesquisando e defendendo: que cuidar também é criar vínculos, reconhecer saberes locais e fortalecer o tecido social que sustenta o envelhecimento com dignidade.

Nesse sentido, surgiram experiências inspiradoras em que comunidades locais assumem protagonismo na criação de soluções. Aqui, o conceito de co-design ganha destaque: projetar com e não para as pessoas, escutando suas vozes, respeitando suas culturas, reconhecendo seus saberes e necessidades.

Essa ideia de colaboração, de cuidado horizontal e adaptado ao território, me fez pensar ainda mais na potência do cohousing — não como uma solução única, mas como parte de um ecossistema de possibilidades que precisamos explorar com coragem, sensibilidade e criatividade.

O desafio de envelhecer em um planeta em crise climática

O conteúdo das mesas e painéis foi de altíssimo nível. As discussões transitaram de tecnologias aplicadas ao cuidado até políticas públicas de longo prazo, com ênfase especial nas redes de apoio comunitário como base essencial para um cuidado mais humano e integrado. Em diferentes vozes e contextos, uma ideia se repetia com força: o envelhecimento não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser acolhida com criatividade, planejamento e solidariedade.

E entre tantas reflexões, uma questão atravessou quase todas as conversas: a crise climática. Como as mudanças ambientais afetam o envelhecimento e as formas de cuidado? Onde estão as pessoas idosas nas estratégias de resiliência urbana, nos planos de evacuação, nas ondas de calor, nas enchentes, na escassez de recursos?

Essas perguntas ecoaram com força. Porque é urgente compreender que o envelhecimento faz parte essencial das políticas ambientais — e vice-versa. Não há cuidado possível em um planeta doente. Precisamos desenvolver soluções e construir comunidades mais sustentáveis, acessíveis e preparadas para as transformações que já estão em curso.

Unidos pelo Cuidado: Brasil sediará o próximo Summit ICS_CPLP

Outro momento especial foi acompanhar o 1º Summit de Integração de Cuidados de Saúde nos Países de Língua Portuguesa, realizado dentro da programação do ICIC25. A troca entre representantes de Angola, Moçambique, Portugal, Cabo Verde, Brasil e outros países evidenciou desafios comuns, como desigualdade no acesso à saúde, envelhecimento acelerado das populações e escassez de políticas públicas sustentáveis.

E a melhor notícia? Ficou decidido que o próximo encontro será realizado no Brasil! Um motivo de celebração, sem dúvida. Não apenas pelo prestígio, mas pela possibilidade de colocarmos em pauta nossas realidades, potências e urgências. Um chamado à ação: como integrar saberes, recursos e políticas de forma mais equitativa entre os países lusófonos? Que modelos de cuidado queremos construir juntos?

Fim de congresso, início de outras descobertas

Encerrar esses dias em Lisboa foi como virar a última página de um livro que te prende do início ao fim — daqueles que você fecha devagar, com vontade de começar tudo de novo. Voltei com o caderno cheio de ideias, anotações nas margens, contatos valiosos, páginas marcadas com entusiasmo e o coração aquecido por tantos encontros potentes. E a sensação boa de estar conectada com uma rede global de pessoas que, como eu, acreditam que o cuidado pode — e deve — ser coletivo, criativo e afetivo.

E como boa viajante-pesquisadora que sou, é claro que não parei por aí: sim, aproveitei a passagem pela Europa para visitar alguns cohousing. Quis ver de perto o que tanto estudo na teoria, conversar com quem vive essa experiência e mergulhar nas dinâmicas do dia a dia dessas comunidades intencionais que reinventam o envelhecer. Mas essa parte da viagem… eu deixo para a próxima matéria!

Até lá, seguimos conectados por ideias que acolhem, por espaços que inspiram, arquiteturas que escutam e por pessoas que nos lembram, todos os dias, que envelhecer não precisa ser um processo solitário — mas uma construção partilhada de autonomia, cuidado e afeto.

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