Como projetar uma moradia que evite a solidão em pessoas idosas

No ano de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que a solidão é uma epidemia de saúde pública, questão que acomete pessoas de todas as idades e certamente foi agravada pelo longo período de distanciamento social determinado pela pandemia da Covid-19. Para pessoas idosas, população que mais sofreu com o impacto causado pelo vírus SARS-cov-2, essa situação provocou consequências ainda mais graves, especialmente com impactos na saúde mental. O medo da doença, através da percepção de que a fragilidade do corpo humano provoca situações incontornáveis, levou muitas pessoas a viverem isoladas do convívio com outras mais próximas, especialmente vizinhos. Mesmo com a superação da crise mundial, os reflexos daquele período perduram e tornaram-se permanentes, especialmente para aqueles que perderam entes queridos. A solidariedade que se manifestou mundialmente parece ter sido esquecida, quando todos com trabalhos formais retomaram suas rotinas e o tempo para a convivência com pessoas mais velhas tornou-se novamente escasso.

Ao desenvolver pesquisas com base na Gerontologia Ambiental e com o foco nas alternativas de moradia, estudo os impactos do ambiente construído no envelhecimento humano, em especial em relação à pessoa idosa. Meu estágio de pós doutorado ocorreu de outubro de 2019 a fevereiro de 2020, com a pesquisa intitulada Alternativas de moradia na velhice: conhecendo a experiência portuguesa para inovar em modelos institucionais adequados à cultura brasileira”, abordando as percepções dos moradores sobre a ambiência em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas – ERPI, através de entrevistas individuais e observações quanto à apropriação dos ambientes pelos moradores idosos. Teve como objetivo estabelecer parâmetros arquitetônicos inovadores em moradias institucionais, de modo a promover a autonomia, facilitar os processos de cuidado e melhorar a qualidade dos serviços oferecidos. Foram entrevistadas 61 pessoas idosas em 7 residenciais administrados por 3 organizações diferentes, sendo 6 Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas – ERPI, e somente uma Residência Assistida, localizada no Bairro Padre Cruz.

Residência Assistida Bairro Padre Cruz

Essa alternativa, gerenciada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mostrou-se diferenciada pelo seu caráter de garantir o envelhecimento no lugar – Aging in Place, mantendo a privacidade e preservando a autonomia dos moradores. Ficou evidente que a assistência oferecida é bem-vinda e, mesmo com a independência, o estímulo à criação de vínculos aumenta o senso de comunidade e amplia a adesão a atividades coletivas, evitando a solidão e transformando as rotinas através de eventos definidos coletivamente. Por outro lado, a possibilidade de promover encontros entre diferentes gerações, já que no mesmo edifício há uma creche, um centro dia e uma área de estudos para adolescentes no contraturno, carece de maior incentivo, claramente em função da setorização do edifício. Portanto, circulações e equipamentos não atendem a esse intento, mesmo com a evidente oportunidade de aproximação desses indivíduos.

Destaco um fato que surgiu nas interações que pude vivenciar e mesmo nas entrevistas, o que despertou esse aspecto de como pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença quando se pretende ampliar o convívio para além da vizinhança. Havia uma máquina de autosserviço para café ao lado do elevador, podendo ser utilizada pelos moradores que acessavam por ali e por todos os frequentadores do térreo, o que promovia encontros casuais e conversas espontâneas, de acordo com um dos moradores. Por solicitação deles, foi colocada outra máquina na sala de convivência, onde faziam refeições coletivas, confraternizações e encontros com as famílias, de modo a torna-la mais acessível, especialmente para os que saíam pouco do residencial. O resultado não poderia ser outro: cessaram os encontros intergeracionais e o que acontecia no térreo já não era assunto entre os moradores, perdendo oportunidades de conhecerem novas pessoas do bairro. Poderíamos pensar que foi somente o acréscimo da máquina de café que resultou nesse afastamento ou uma outra solução de circulação no edifício manteria as antigas interações?

O objetivo daquela investigação não envolvia a análise do edifício e, sim, como os moradores percebiam a ambiência, especialmente em contextos de cuidado mais intensivo. A oportunidade de conhecer as impressões de pessoas idosas residentes no Bairro Padre Cruz trouxe outra perspectiva, relacionada à convivência de pessoas independentes. Agora, considerando a moradia como equipamento residencial para essa população, torna-se fundamental verificar de que modo o edifício possibilita a consolidação de vínculos por meio da convivência nas áreas comuns, sendo responsável por aproximar vizinhos e favorecer o senso de pertencimento na comunidade.

Bons projetos evitam a solidão?

Para compreender as experiências vividas em edificações já ocupadas, podemos estabelecer duas abordagens distintas, sendo a primeira relativa a dados objetivos quanto à construção propriamente dita, além da condição de manutenção da edificação original e eventuais alterações. A segunda diz respeito à apropriação dos ambientes, internos e externos, pelos moradores do complexo, considerando encontros eventuais em corredores, elevadores e escadas, além de convivências em ambientes de permanência prolongada ou em espaços adotados espontaneamente para uso coletivo.

Através de um levantamento de dados documentais relativos ao projeto arquitetônico de uma edificação existente, assim como registro fotográfico da situação atual, é possível verificar as condições de estado físico, funcionamento e eventuais intervenções individuais, incluindo a verificação das áreas livres no entorno imediato da construção. Jardins, áreas de estar externas, caminhos e outros elementos complementares, são importantes na análise de circulações internas, dimensões de espaços para uso coletivo, sistemas de fechamento das unidades habitacionais, sistemas de iluminação/ventilação e revestimentos, além de cores e texturas dos elementos estruturais. Uma conferência sobre eventuais alterações de projeto na execução do edifício, através de medições complementares e mapeamento de acréscimos por equipamentos complementares, pode contar com detalhes a história daquele empreendimento.

Para detectar o comportamento dos moradores no uso dos ambientes do conjunto edificado, é necessária uma abordagem qualitativa de investigação através de observação não participante, também denominada observação passiva ou direta. Nesse tipo de observação o investigador mantém-se à distância das pessoas do grupo observado, de modo a registrar os modos de apropriação, intensidade, frequência e dinâmica dos encontros, sejam eles positivos ou não. Será fundamental considerar a distância adequada para não interferir com os momentos registrados e observar em momentos diferentes do dia, para que se considerem rotinas, hábitos e influência climática nas mudanças de comportamento. Exemplares avaliados após a ocupação possibilitam um exercício de projeção baseado em evidências, demonstradas através das experiências dos seus ocupantes, que contribuem para que novos projetos sejam bem-sucedidos.

Uma avaliação sobre conjuntos de moradia que incentivem a convivência e diminuam o risco da solidão e suas consequências pode contribuir para uma arquitetura efetivamente adequada aos novos tempos, a partir do reconhecimento do mal provocado pelo isolamento. Ao oferecer projetos adequados para conjuntos residenciais que incentivem a independência para pessoas com autonomia preservada, caso das residências assistidas e de comunidades intencionais colaborativas – cohousing seniores, possibilita-se a criação de vínculos que estimulam convivências produtivas, através de atividades coletivas para o preenchimento do tempo livre. A solidão será combatida se houver ambientes estimulantes para a construção de relações positivas entre os moradores, sendo que a arquitetura do edifício e sua relação com circulações, áreas livres, programa, dimensionamento e mobiliário pode favorecer ou impedir bons relacionamentos.

O papel dos arquitetos

Os espaços de vida são importantes cenários para atividades em geral, sejam elas rotineiras ou eventuais, desde que possibilitem a construção de vínculos para que o envelhecimento ativo mantenha a saúde em uma perspectiva biopsicossocial. Cabe verificar como projetos arquitetônicos para pessoas idosas independentes, moradoras nesses condomínios especializados, efetivamente favorecem a convivência e a construção do pertencimento nesse contexto. Assim, é importante compreender como os ambientes coletivos são ocupados pelos moradores idosos em conjuntos habitacionais especializados, com vistas a observar em que espaços e de que maneira são apropriados para encontros amigáveis e/ou permanência conjunta.

Por outro lado, adotar dimensões, proporções e ambientes coletivos com mobiliário adequado, assim como qualificar os espaços pelo uso de cores, com iluminação que potencialize as qualidades sensoriais do ambiente construído e enfatize estímulos olfativos associados a estratégias biofílicas, além de elementos complementares para a humanização dos espaços. Nesse cenário, as manifestações individuais de territorialização, através de elementos que marquem a diferenciação de aberturas para o espaço comum, possibilitam o protagonismo dos participantes dessas comunidades.

Os arquitetos têm a responsabilidade de atender às novas demandas da sociedade, considerando pessoas idosas cada vez mais conectadas ao mundo virtual, sendo o que torna urgente a necessidade de desenvolver opções de moradia que atendam às suas necessidades, especialmente no contexto de vidas solitárias. Somente praticando a empatia será possível uma real imersão no universo dos moradores de residenciais dedicados a assistir pessoas idosas cada vez mais longevas, verificando in loco como se relacionam os elementos que compõem o funcionamento de uma edificação destinada a caracterizar seus espaços de vida.

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