As ondas de calor não são mais eventos isolados, elas se tornaram uma realidade frequente na cena global (IPCC, 2023; McGregor, 2024). Enquanto os recordes de emissões de gases de efeito estufa continuam a ser quebrados, a população idosa enfrenta um risco silencioso dentro de suas próprias casas (Haq & Gutman, 2014; IPCC, 2023; Romanello et al., 2025).
A partir desse cenário surgem as questões: nossos lares estão prontos para oferecer proteção às pessoas idosas frente ao estresse térmico? Como tornar o ambiente interno, onde pessoas idosas passam a maior parte do seu tempo, um local seguro e não um fator de risco à saúde?
Envelhecimento e Vulnerabilidade ao Calor
O envelhecimento traz alterações fisiológicas que afetam a termorregulação, responsável por manter a temperatura corporal estável. A capacidade sudorípara e o fluxo sanguíneo na pele diminuem, dificultando a dissipação do calor (Gaugler, 2024; Haq & Gutman, 2014; WHO, 2023).
Além disso, a sensibilidade térmica ao calor pode declinar, o que significa que pessoas idosas tendem a não perceber que o ambiente está aquecendo perigosamente (Panet et al., 2020). Isso pode levar ao estresse térmico sem que o indivíduo tome medidas preventivas a tempo. Logo, a configuração do domicílio e a adoção de comportamentos de proteção, além de questões de conforto, são estratégias de saúde.
O Desafio do Superaquecimento Interno
As pessoas idosas devem ser agentes ativos na gestão do calor doméstico, utilizando oportunidades adaptativas (Silveira et al., 2020). No entanto, as características da edificação podem dificultar essa tarefa, tornando a casa, que deveria ser um refúgio, uma armadilha térmica.
Diante da necessidade de adaptar o espaço residencial às limitações físicas da edificação, destacam-se algumas medidas para o manejo da temperatura interna:
- A ventilação natural é uma estratégia de resfriamento muito usada. Entretanto, estudos apontam que pessoas idosas mantêm janelas e portas fechadas devido a preocupações com segurança, privacidade e entrada de insetos ou animais. Nesse cenário, o uso de telas de proteção pode ser uma intervenção simples para permitir que o ar circule (Silveira et
al., 2020). - O uso de persianas, cortinas, toldos externos e a vegetação próxima a janelas são boas opções para reduzir o ganho de calor solar. Além disso, indica-se que a disposição dos móveis seja pensada para evitar áreas próximas a paredes que recebam sol direto (Bundle et al., 2018; Meade et al., 2024).
- Se disponível, o terraço é um ambiente utilizado para aliviar o calor, servindo como uma zona de transição sombreada (Silveira et al., 2020).
- Na insuficiência da ventilação natural, recorremos à climatização através de ventiladores e ar-condicionado. No entanto, é preciso cautela:
Quando a temperatura interna ultrapassa 35°C, o ventilador sozinho pode, paradoxalmente, acelerar o ganho de calor do corpo. A estratégia recomendada é aliar o ventilador à aplicação de água na pele para favorecer a evaporação (Meade et al., 2024; Mihalcin et al., 2025).
Sobre o ar-condicionado, ainda que seja a solução mais eficaz para reduzir a temperatura interna, o custo elevado de energia e o impacto ambiental o tornam uma solução insustentável a longo prazo se usado como única medida (Mihalcin et al., 2025; Romanello et al., 2025).
O uso de climatizadores portáteis e instalação de recipientes com água podem ser aliados na adaptação à altas temperaturas, contribuindo com a umidificação do ambiente.

O Impacto do Calor no Sono
O aumento das temperaturas noturnas, característico das ondas de calor, compromete severamente a recuperação fisiológica em pessoas idosas, intensificando o estresse térmico e impedindo o resfriamento necessário para o repouso (Bundle et al., 2018; Romanello et al., 2025).
Em 2024, a perda de sono por calor excessivo subiu 9% em relação aos níveis históricos (Romanello et al., 2025). Enquanto consequências dessa privação de sono, além do cansaço, estão: a potencialização de riscos cardiovasculares, declínio cognitivo e transtornos, tais como ansiedade e depressão (Romanello et al., 2025).
Estudos realizados em ambientes residenciais indicam que o quarto é frequentemente considerado o ambiente mais quente e menos ventilado da casa. Isso ocorre porque, sendo um espaço íntimo, as janelas costumam permanecer fechadas por mais tempo (Silveira et al., 2020).
Ilhas de calor urbano são fenômenos climáticos em que regiões centrais apresentam temperaturas mais altas que seus arredores rurais, onde geralmente há menos áreas não pavimentadas para a retenção de umidade provocada pelas chuvas. Edificações localizadas nessas áreas sofrem ainda mais, pois a retenção de calor pelas superfícies urbanas impede que a temperatura interna da casa baixe o suficiente durante a madrugada para permitir um sono
adequado (Bundle et al., 2018; Cataldi et al., 2024; Mirzaei et al., 2012).

Mudanças de Hábito
A ação integrada, unindo adaptações no ambiente e no comportamento, pode produzir melhores resultados de saúde e conforto diante dos eventos de calor extremo. Práticas como a hidratação regular e o uso de vestimentas leves, preferencialmente de algodão, são fundamentais, podendo ser complementadas por banhos frequentes e o uso de toalhas molhadas (Silveira et al., 2020).
Essas medidas tornam-se ainda mais relevantes diante das mudanças no padrão de atividade física, uma vez que eventos de calor extremo favorecem o comportamento sedentário. Embora a redução do esforço seja uma resposta necessária para evitar a sobrecarga cardíaca, o sedentarismo prolongado pode trazer prejuízos à saúde a longo prazo. Assim, é importante considerar a alteração do tipo de exercício, horário e local da prática, garantindo ambientes com temperaturas seguras que permitam a continuidade das atividades (Lindemann et al., 2017).
Solidariedade e Soluções Comunitárias
Adaptar-se a um clima em mudança não precisa ser uma jornada solitária. O fortalecimento de comunidades e a solidariedade entre gerações são as chaves para garantir que as pessoas idosas vivam com dignidade e segurança durante ondas de calor e outros eventos climáticos extremos (Falchetta et al., 2024; WHO, 2023).
Pequenas mudanças no ambiente doméstico e um olhar mais atento ao próximo podem salvar vidas, reforçando o senso de pertencimento aos grupos em que cada indivíduo está inserido.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- Meade, R. D. et al. Human heat resilience in a warming climate: Biophysical and
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predictive tool. Building and Environment, v. 57, p. 7-17, 2012. - Panet, M. F. et al. No calor da idade: parâmetros de conforto térmico para idosos
residentes em localidade do semiárido paraibano. Ambiente Construído, Porto Alegre,
v. 20, n. 2, p. 135-149, abr./jun. 2020. - Romanello, M. et al. The 2025 report of the Lancet Countdown on health and climate
change: climate change action offers a lifeline. The Lancet, v. 406, p. 2804–2857, 2025. - Silveira, J. G. et al. A percepção da ambiência térmica e as estratégias de adaptação:
estudo de caso com idosos no clima tropical. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 20,
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