Ambientes restauradores para o conforto de pessoas neuroatípicas.

Pessoas neuroatípicas são aquelas que apresentam variações no sistema neurológico, determinando diagnósticos como autismo, TDAH e dislexia, sendo uma forma de neurodiversidade. Não é uma doença, afetando o funcionamento cerebral e impactando o comportamento ao longo do ciclo de vida.

Visto serem recentes as políticas públicas de neurodiversidade no Brasil, a recente Lei nº 15.256/2025 traz uma nova perspectiva na atenção necessária a adultos não diagnosticados e que, muitas vezes, passam por trajetórias profissionais e pessoais de sofrimento ao sentirem-se inadequadas. Além do preconceito raso sobre a dificuldade de integrarem-se em comunidades típicas, o ambiente pode ser um fator determinante como barreira ou facilitador, a depender de características de cada neuroatipia.

Ambientes Restauradores

Sabe-se que a rotina diária exige que haja períodos de restauração e em lugares que promovam o descanso para o esgotamento físico e cognitivo, de modo a recuperar a força e a atenção. Também para pessoas neurotípicas, indivíduos que não possuem problemas no seu desenvolvimento neurológico, o ambiente físico é primordial para a restauração e o bem-estar. Investir em um ambiente saudável e funcional é um passo essencial para alcançar equilíbrio mental e emocional, além de maximizar o potencial humano.

Um ambiente restaurador contém atributos capazes de promover o equilíbrio psicofisiológico das pessoas que o utilizam, possibilitando a recuperação do estresse e da capacidade funcional, antes fatigada em função de atividades repetitivas ou pela pressão impingida pelo contexto emocional. Espaços de descompressão possibilitam o distanciamento necessário para o descanso mental, despertam novos atrativos de interesse, organizam experiências coerentes e favorecem a harmonia com as necessidades do indivíduo. Abaixo, imagem da Sala Sensorial do Allianz Parque, do time de futebol Palmeiras.

O Transtorno do Espectro Autista – TEA – caracteriza-se por comportamentos diferentes na interação social e no processamento sensorial, afetando a comunicação. Hipersensibilidade a sons, luzes e texturas podem sobrecarregar qualquer espaço físico, sendo que ambientes previsíveis, legíveis e equilibrados favorecem a permanência, a autonomia e a autorregulação.

Elementos de Descompressão

A busca por ambientes de trabalho mais equilibrados e saudáveis tem levado empresas a investirem na criação de espaços de descompressão, áreas destinadas a permitir que os funcionários relaxem, se desconectem e recarreguem as energias. No entanto, na moradia igualmente deve haver especial atenção às condições ambientais, em especial quando é coletiva e atende diferentes perfis de moradores, tal como nas Instituições de Longa Permanência para Idosos – ILPI.

As cores devem estimular a criatividade e a energia necessária para as atividades da vida diária, a partir de tons que possibilitem esse efeito. Porém, quando são utilizados tons suaves, cria-se uma atmosfera relaxante para salas de descompressão, estimulando o conforto visual e sensorial.

A iluminação é responsável pela identificação dos espaços e pela continuidade das atividades rotineiras, mas também deve ser equilibrada, já que o excesso causa reações desagradáveis e a falta desorienta e impede muitas ações diárias. A iluminação artificial adequada também pode ajudar a criar ambientes confortáveis e funcionais. A luz natural melhora a qualidade do sono, o humor e a produtividade.

O mobiliário deve atender ergonomia adequada e ajustável, tanto em alturas quanto em proporção no espaço. Quando mesas são compartilhadas, é importante preservar a intervenções sonoras que possam gerar incômodos. Ao lado, Sala de Descompressão na Estação Santa Cruz do metrô de São Paulo.

Talvez o mais importante elemento seja a presença de natureza a partir de um design biofílico. A luz natural, plantas, cores inspiradas na natureza e a incorporação de materiais naturais podem reduzir o estresse, melhorar o humor e garantir bem-estar.

Por fim, como recomenda o Arq. Roberto Lima dos Santos, a arquitetura para pessoas com TEA deve priorizar previsibilidade e redução de estímulos, sugerindo estratégias espaciais que podem melhorar o conforto, reduzir estímulos negativos e favorecer a autonomia.

Para aumentar a segurança e reduzir a sobrecarga sensorial, é importante estabelecer espaços com menos ruídos e reverberação, além de iluminação difusa, evitando luzes fortes ou piscantes. Um layout organizado e fácil de entender facilita a percepção de áreas de fuga e de silêncio para regulação sensorial, adotando uma paleta de cores suaves e neutras.

Pessoas Idosas com TEA

De acordo com o Arq. Ciro Albuquerque, projetos arquitetônicos que ofereçam ambientes previsíveis, acessíveis e emocionalmente positivos reduzem demandas desnecessárias e tornam-se parceiros do envelhecimento, promovendo dignidade e continuidade existencial.

Para Dri Cardoso, Ale Freitas e João Brito, da Neuropsi – empresa de consultoria dedicada às questões da neurodiversidade, as residências inclusivas não recebem pessoas idosas, já que são encaminhadas a instituições de longa permanência que não estão preparadas para receber neuroatípicos. Sugerem novas modalidades residenciais, dedicadas a pessoas autistas idosas, com equipe multiprofissional preparada para esse atendimento.

O reconhecimento oficial de que pessoas autistas adultas e idosas precisam ser compreendidas, respeitadas e efetivamente incluídas nas políticas públicas, exige a determinação de um suporte interdisciplinar para que os espaços de vida e de trabalho atendam especificidades e possibilitem o conforto necessário para uma vida plena.

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