Escolher um fim de vida em casa traz mais dignidade no momento da morte?

Recentemente assisti o filme “Mia Madre”, produção Itália/França de 2015 do diretor Nanni Moretti, sobre a decisão de sair do hospital e levar para casa a mãe da protagonista, uma idosa em fase terminal. Certamente há muitos conflitos que permeiam essa decisão, a começar pela esperança de que a proximidade do cuidado em medicina pode prolongar a vida. Mas, a que custo? Por outro lado, em casa é preciso cuidado constante e pode haver uma resistência da própria idosa em decidir como deseja conduzir suas rotinas, afinal ela é a dona da casa. Havia ainda um detalhe importante: o compartilhamento da decisão com o irmão, aparentemente mais flexível mas também em fase de reflexão sobre sua própria vida. Outra personagem importante era a neta, adolescente, bastante impactada pelo fim iminente da avó. Portanto, quatro vidas a serem tratadas de acordo com os fatos comuns.

Quando falamos em finitude e morte, há sempre uma sensação de que nem é preciso pensar nisso quando os fatos ainda não anunciam esta possibilidade, embora saibamos que isso seja a única certeza durante a vida. Ao nos depararmos com situações de terminalidade de um parente idoso, em geral passamos a perceber o quanto somos vulneráveis, primeiro grande impacto, e a refletir sobre nossa própria vida. O que deixamos de fazer? O que poderíamos ter feito diferente? O que pode ser feito agora para amenizar esta sensação de impotência frente à morte iminente?

Colocamos sobre os médicos e enfermeiros uma carga de esperança e angústia que não melhoram o quadro emocional do paciente hospitalizado, embora o acompanhamento especializado e o pronto atendimento em caso de crise possa prolongar a vida e reduzir a dor. Mas o ambiente hospitalar, por mais inovador que seja, jamais conseguirá semelhança com o próprio lar, a começar pela impessoalidade dos ambientes pela necessária assepsia exigida para sua finalidade. Por mais que haja ambientes diversos para visitar, numa tentativa de diversificar as sensações, serão sempre revestidos de materiais frios e limitados por superfícies assépticas. Isso traz sons metálicos, uma certa monotonia e, principalmente, procedimentos orquestrados para a segurança biológica. Portanto, em nada se parecerá com o que consideramos nossa história, memória e cultura.

Li, recentemente, que uma idosa americana havia decidido interromper um tratamento contra o câncer pois optou por viajar com o filho e conhecer os lugares que sempre sonhara. O tratamento custaria caro, talvez prolongasse sua vida mas, ao fim e ao cabo, não acrescentaria a ela algo além de esperar pela morte sem viver intensamente o tempo que lhe restava. Portanto, a opção de viver tantas experiências tais como viajar ou, simplesmente, sentir-se em casa, pode ser o desejo de esperar a morte com dignidade mas sem desistir da convivência e do amor que pode cercar cada indivíduo. Se a morte é certa, por que lutar contra ela? Aproveitar a vida, essa é outra certeza que deveríamos ter a cada novo amanhecer.

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