Por que antecipar a decisão de como morar na velhice se temos tempo para comparar alternativas ao longo da vida?

Conta-se que a Prefeitura Municipal de Alegrete-RS, cidade natal do poeta Mário Quintana, quis homenageá-lo em 1968 com uma placa na praça da cidade, e a ele foi solicitada a sugestão de uma frase que a coroaria para a eternidade. Com seu sarcasmo habitual, enviou: Um engano em bronze é um engano eterno, frase que foi acolhida apesar de ser surpreendente. Muitas vezes temos medo de errar em nossas decisões e as adiamos, mas em outras “ousamos” decidir sem experimentar alternativas, criando preconceitos ou assimilando opiniões muitas vezes pouco balizadas, o que pode determinar um erro pior ainda.

Ao pensar que um idoso deve permanecer em sua casa, com a família, até o final da vida, familiares estão baseando-se em pensamentos geralmente altruístas e fundamentados no amor e respeito que têm por seus idosos. Mas, e se o cuidado necessário estiver além da atenção e do respeito? Se for imprescindível o conhecimento de enfermagem, decidindo sobre a administração correta de medicamentos ou o manejo adequado de acamados nas ações de higiene? É necessário um cuidador formal, o que pode significar alteração da rotina da casa, custos associados e alguns inconvenientes. Ficar em casa é preferível, mas nem sempre é possível. A moradia assistida oferece um conjunto adequado de serviços especializados, podendo ainda estimular o convívio social e a prática de atividades lúdicas e culturais. Ambas as soluções são boas se atenderem às necessidades de todos, não descuidando da atenção e do respeito.

Há diversos modos de estudar as alternativas, especialmente buscando informações sobre empreendimentos existentes, sempre compartilhando impressões com todos que decidem, em especial o próprio idoso. Normalmente os preconceitos são criados através de opiniões familiares ou dos grupos sociais mais próximos, incluindo os que se formam em ambientes profissionais. “Decidir” que moradias assistidas para idosos são “asilos” é a prova flagrante de preconceito sobre residenciais coletivos, ainda não ideais mas já muito mais evoluídos do que os antigos modelos. Por outro lado, achar que um empregado que “gosta de velhinhos” pode ser um bom cuidador formal é colocar em risco uma pessoa frágil e que exige cuidado.

O objetivo deste blog, como divulgado no início, é oferecer elementos de reflexão sobre as alternativas oferecidas à sociedade contemporânea, a cada dia mais longeva e ativa. Ser modular é justamente estar aberto para rever conceitos, repensar hábitos e despir-se de opiniões herméticas que podem, somente, dificultar a solução para o que é irremediável: envelhecemos ao longo da vida, podemos viver uma velhice longa e não sabemos como ela será, embora possamos prevenir certas perdas. O importante é estarmos prontos para a melhor decisão quanto a morar na velhice, mantendo a dignidade, o respeito e o carinho que nossos queridos merecem. Afinal, esta não é uma decisão gravada em bronze, podemos sempre rever posições!

2 comments on “Por que antecipar a decisão de como morar na velhice se temos tempo para comparar alternativas ao longo da vida?

  1. Maria Luisa parabéns por mais este artigo ,sempre com esse olhar atento às questões da velhice. No centro-dia observamos e sentimos essa questão do preconceito bem presente. Embora no primeiro contato façamos essa comunicação sobre conhecer e discernir (incluindo sempre o idoso) os serviços disponíveis hoje e quais se adequam ao perfil do idoso e seu familiar, ainda “se enxergam” casas de repouso como locais terríveis e repugnantes e o centro-dia como serviço igual ao de casas de repouso. Temos que trabalhar duro na comunicação que derruba esses mitos ,inclusive o de o melhor cuidador é o familiar- e você o faz brilhantemente. Abraço.

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    • Marília, o centro-dia ainda carrega outro estigma, o de ser uma “creche para idosos”! Embora haja semelhança na intenção do serviço, ou seja, cuidar durante o dia ou parte dele para que o idoso não fique só ou ocioso, há muito mais do que o cuidado em si: há oportunidades de socialização, de prevenção de perdas, de estímulo ao engajamento em atividades culturais, físicas ou lúdicas. É mesmo uma luta que, aos poucos, os profissionais da Gerontologia vão vencendo ao informar melhor para reduzir preconceitos… Obrigada pelo estímulo, agradeço imensamente pela participação e aponte temas que gostaria de ver colocados aqui, para reflexão… Beijos…

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