Como definir os territórios pessoais em uma moradia compartilhada por três gerações?

Morar com os pais idosos geralmente justifica-se quando há a necessidade de cuidado e mais atenção, seja mudando para a residência deles ou para a casa dos filhos. Porém, ficou evidente no período da pandemia que muitas famílias compartilham espaços para racionalizar custos, o que obriga a que todos se ajustem a essa situação, em especial dispensando o desejo de privacidade e até de algum conforto. Nesse contexto afloram lideranças e conflitos, características que podem levar à dificuldade nos relacionamentos e tornar a convivência insustentável.

No filme My Happy Family (Geórgia, 2017), uma família comum vive sob o mesmo teto, a casa original dos avós que, abrigando a filha casada, foi ajustando suas rotinas com a presença dos netos. Esses, já adultos, têm também suas próprias vidas: a neta casada continua morando com eles e, mesmo depois de separada, acolhe a esposa do irmão, que igualmente se muda para lá  (https://www.netflix.com/br/title/80171247). A filha, mãe dos jovens, sente-se infeliz e resolve morar só, o que os outros têm dificuldade de aceitar.

Esposa e mãe, uma mulher de 52 anos choca a sua tradicional família georgiana ao anunciar que vai sair de casa para morar sozinha.

Na decisão de sair, ela é questionada pelo marido, que se diz dedicado, embora guarde um segredo que é descoberto depois. O pai, muito idoso, aparentemente não interfere e quase passa despercebido. A mãe, a dona original da casa, dá as ordens e a questiona, afirmando que sempre criou os netos e manteve a alimentação de todos em dia. Mas a filha está decidida e encontra um pequeno apartamento onde tem silêncio para ouvir suas músicas e trabalhar também em casa, pois é professora. Além disso, cozinha o que tem vontade e organiza seu tempo como prefere, mesmo atendendo os muitos chamados da família.

A lição com a qual podemos refletir é de que não basta termos um quarto privativo, se houver muito barulho nos outros aposentos. Mesas compartilhadas também reúnem discussões e comentários, nem sempre adequados no momento em que a refeição serve também para alimentar a alma. Hábitos incômodos podem ser repreendidos muitas vezes, mas fomenta também os conflitos e cria tensões, até entre os que não estão diretamente ligados ao fato em si. A convivência, mesmo havendo amor em família, pode cansar e exigir distanciamento que, se não é possível fisicamente, pelo menos deve permitir o isolamento sem que se obrigue à constante atenção.

Neste período em que a pandemia obrigou muitas famílias ao distanciamento social, ficou evidente a existência das que vivem sob o mesmo teto e tinham seus momentos de fôlego quando saiam para atividades fora de casa. O home office obrigatório denunciou a dificuldade de trabalhar enquanto filhos pequenos exigem atenção, e os idosos podem demonstrar carência afetiva quando a ansiedade do momento os faz mais exigentes. Que nos sirva de lição a necessidade de delimitar territórios, mesmo com todos juntos compartilhando espaços, por mais amor que justifique essa proximidade.

One comment on “Como definir os territórios pessoais em uma moradia compartilhada por três gerações?

  1. Vou assistir esse filme, achei muito interessante essa reflexão. Temos a questão também dos que vivem sozinhos e estão confinados, alguns não possuem família nem filhos e sofrem com problemas de solidão e depressão

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