Pessoas que moram por muitos anos no mesmo imóvel geralmente consideram difíceis as mudanças, sejam dos arranjos ou para outras moradias, especialmente quando acumulam móveis e objetos que representam lembranças importantes. O desapego é doloroso e o espaço para manter esse acúmulo acaba por prejudicar a manutenção dos ambientes, o que determina menor conforto e até a redução da própria segurança. Manuel de Barros, poeta sul-mato-grossense que viveu até os 97 anos observando particularmente como percebia os detalhes da natureza, descreveu à sua maneira como via a vida. Dentre muitas passagens singelas da sua produção, destaca-se esta:
Quem anda nos trilhos é trem de ferro, sou água que corre entre as pedras: liberdade caça jeito.
Nesse verso podemos verificar que há uma certa rebeldia quanto a seguir regras e orientações previstas socialmente, além de uma clara busca por atender seus desejos e necessidades. De acordo com Eric Fernandes, Manuel de Barros era flexível quanto às mudanças ao longo da vida e a aproveitou com a leveza de quem vive atento aos detalhes que emocionam, como descrito a seguir (https://ericfernandes.wordpress.com/2011/04/29/“quem-anda-nos-trilhos-e-trem-de-ferro-sou-agua-que-corre-entre-as-pedras-liberdade-caca-jeito-”/).
A água, ao contrário do trem, não reconhece trilhos e, mais que isso, nunca é a mesma água. Ela se adapta, se transforma, interage, modifica e é modificada, imprevisível como a vida. (…) Ora, Barros nos informa de sua decisão na vida, como eu o interpreto. Ele decide não se limitar, não se pautar na trajetória mecânica de seu tempo, valores e verdades. Escolhe a natureza fluida da água e a toma para si, passando a aceitar suas mudanças e estando disposto a adaptar-se ao mundo ao redor, como faz o líquido em sua imprevisível peregrinação.
Manter-se na própria casa por muito tempo traz o risco de adaptar-se a ela, mesmo sem as boas condições de segurança e conforto desejáveis na velhice. Móveis e objetos antes úteis podem deixar de ser e, portanto, novos arranjos ou o desapego no descarte trazem configurações mais adequadas e uma renovação dos espaços de vida. A sensação de permanecer no mesmo lugar pode e deve ser animada pela renovação, mesmo que somente haja novos leiautes e pequenas reformas que ofereçam mais conforto e segurança a cada novo ano vivido. Não somente renovar revestimentos, pinturas e acessórios, mas principalmente manter uma relação de prazer com a moradia, sem excessos e pesos desnecessários, abrindo espaço para a luz, a circulação e aos novos objetos que instiguem sentimentos afetivos. Sair dos trilhos e da condição de máquina que segue em frente puxando a composição para fluir como a água que contorna os obstáculos, livre para decidir qual caminho lhe parece melhor. Morar significa sentir-se protegido para relaxar e viver feliz, em ambientes que apresentem o suficiente para necessidades e desejos daqueles que veem a vida sempre renovada pelas mudanças.


Prof… lembro dos estágios q fiz e da mudança q isso provocou no meu ponto de vista. Hoje, mais q nunca, acho q temos q exercitar corpo e mente para conseguir nos manter em “nosso habitat” o maior tempo possível. Cada dia mais me torno adepta da ideia de cohousing mas meus sonhos esbarram nas limitações financeiras. Além do que, cohousing deveria ser algo a ser absorvido antes da idade avançada e suas dependências, de forma q a adaptação fosse prazerosa. Se eu tivesse capital investiria em moradias alternativas, ao modelo da Cidade Madura… já seria um alívio de bem estar na velhice.
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