Como dimensionar a força da comunidade na garantia do bem-estar e do suporte na velhice?

Um dos princípios mais significativos de envelhecer no lugar, no movimento conhecido como Aging in Place, é o da construção de um senso de comunidade entre pessoas que são solidárias por viverem próximas entre si, criando um controle social que possibilita a efetividade de iniciativas em prol do bem comum. Mesmo quando há políticas públicas oferecidas a essas comunidades, serão mais abrangentes e bem-sucedidas se houver o engajamento do grupo, conquistado através de lideranças que comuniquem claramente os objetivos que levarão a transformações sociais importantes. No filme A Odisseia dos Tontos (Argentina, 2019), o esforço conjunto de uma comunidade para novas alternativas de manutenção da vida digna em meio à crise financeira do país encontra obstáculos, mas não diminui a confiança na força do coletivo para solucionar os problemas (https://www.papodecinema.com.br/filmes/a-odisseia-dos-tontos/).

O caos econômico instaurado pelo Governo Collor, que bloqueou as contas correntes de toda a nação no início dos anos 1990, se repetiu na Argentina dez anos depois, no movimento que ficou conhecido como ‘corralito’. (…) Fermín, um ex-jogador de futebol de relativo sucesso, agora mora no interior, em companhia da esposa. Os dois, ao lado de alguns amigos próximos, sonham em restaurar uma fábrica de grãos, há muito abandonada, e com ela uma forma de ganharem a vida, mas também, no processo, oferecer um novo gás para a região, gerando empregos e oportunidades. A solução, portanto, é a formação de uma cooperativa, integrando vizinhos e conhecidos. Cada um faz sua parte, e mais de US$ 150 mil é reunido. Esse dinheiro, no entanto, estava depositado num banco quando tudo foi congelado. A impressão é de terem sido vítimas de uma infeliz coincidência, mas logo descobrem que a realidade é ainda mais cabulosa.

O dinheiro, aparentemente retido pelo governo, na verdade foi retirado por um advogado vigarista, com a conivência do gerente do banco. Na busca do dinheiro, eles descobrem um cofre construído para isso e muitas aventuras recheiam essa história tragicômica, mas a lição mais importante é o que justifica toda a trama. A iniciativa de formar a cooperativa nasce entre um pequeno grupo de amigos, mas cresce a partir da apresentação dos objetivos e da confiança que se estabelece entre todos. Não por acaso a maioria das pessoas são idosas, buscando um projeto que alavanque as condições da comunidade através da cooperativa, envolvendo também os mais jovens para que usufruam dos frutos pretendidos. 

O senso de comunidade traz essa resposta, a de que juntos são mais fortes e todos são responsáveis, não culpando os líderes quando os revezes acontecem. O risco é de todos: seja o de fracassar em função dos percalços, seja o de efetivamente realizar o projeto, mas buscar novos caminhos certamente possibilita evoluir, minimamente como grupo que se reconhece como parte de um todo mais forte. A força da comunidade pode garantir bem-estar e possibilita suporte na velhice, oferecendo tranquilidade e conforto para todas as idades.

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