Quando você pensa em inovação, qual a primeira coisa que lhe vem à mente? Tecnologias de ponta, ambientes futuristas, carros voadores? Claro, todas essas opções podem ser consideradas inovações. Mas, posso afirmar – a partir da minha breve jornada de dois anos estudando este tema em um ambiente específico – que inovação é muito mais que isso. Ela depende de um olhar aguçado para entender diferentes contextos, e é sobre isso que vamos falar hoje neste artigo do Ser Modular.
Afinal, o que é inovação?
A inovação tem sido discutida e estudada pela ciência há muito tempo. Godin (2008), ao contextualizar o início do interesse acadêmico pelo tema, aponta que o conceito de inovação começou a ser teorizado no início do século 20, de forma desfragmentada, em algumas áreas específicas de conhecimento, como sociologia (relacionado à mudança social e ao comportamento organizacional), antropologia (relacionado à difusão e evolução dos traços culturais) e economia (relacionado à mudança tecnológica e seu papel no crescimento econômico).
Desta época até hoje foram apresentadas diversas definições e modelos conceituais de inovação. Uma das definições mais citadas – e, particularmente, uma das que mais fazem sentido para mim – é a de Rogers (2003): uma ideia, prática ou projeto percebido como novo por um indivíduo ou um grupo de indivíduos. Esta definição engloba muito mais do que soluções tecnológicas – acolhe também mudanças sociais, artísticas e organizacionais. O ponto central está na percepção de novidade por parte de quem é o público-alvo dessa inovação.
O Manual de Oslo (OCDE/Eurostat, 2005) é outro referencial muito importante para pensar sobre inovação. Trata-se de um instrumento voltado para a coleta e interpretação de dados sobre o tema, classificando as inovações entre produtos, processos, inovações organizacionais e de marketing.
Já em termos práticos, especialmente no que se refere à ciência da implementação, destaca-se o framework EPIS, que descreve as etapas envolvidas na adoção de práticas baseadas em evidências e inovações: exploração, preparação, implementação e sustentação (Moullin et al., 2019).
Desta forma, percebemos como a inovação não se limita aos problemas tecnológicos, e adaptar um produto, prática ou processo a um novo contexto pode ser considerado inovação, desde que a mudança seja percebida como nova por indivíduos ou grupos.
A inovação nas ILPIs
Como disse no início deste post, venho pensando, nos últimos dois anos, a inovação em um ambiente específico. Isso porque, desde o começo do mestrado em gerontologia até os dias de hoje, no doutorado direto do mesmo programa, dedico-me a investigar como este fenômeno aconteceu durante a pandemia de COVID-19 no contexto das instituições de longa permanência para pessoas idosas (ILPIs) em quatro países: Brasil, Canadá, Estados Unidos e Suíça.
Este estudo é fruto de um consórcio internacional entre os quatro países, financiado pelo New Frontiers in Research Fund, do Canadá, intitulado Contributing to a more inclusive residential long-term care system in a post-pandemic world (CONNECTED Study). Mais informações podem ser encontradas aqui no site do CONNECTED.
Mais especificamente, venho investigando quais inovações foram introduzidas nas ILPIs destes quatro países e quais as motivações para a sua implementação por meio de uma revisão de escopo. Com o conceito de Rogers em mente, tem sido uma grande oportunidade de ver boas práticas e boas ideias sendo introduzidas nessas instituições.
Do que encontrei na revisão, gostaria de destacar algumas iniciativas que nos convidaram a reimaginar o espaço das ILPIs por meio de inovações em ambiência, de forma a proteger os residentes e colaboradores da contaminação e manter o cuidado humanizado nas instituições:
- As salas de isolamento para infecções transmitidas pelo ar (Airborne Infection Isolation Rooms – AIIR) são ambientes com uma leve pressão negativa em relação ao restante da instituição. Isso significa que o ar da sala não sai com facilidade para os outros cômodos, ajudando a evitar que gotículas contaminadas se espalhem. Com isso, diminui-se o risco de outros moradores serem infectados (Lynch & Goring, 2020). Essas salas já são bastante comuns em alguns lugares de cuidados mais agudos, como hospitais, nos EUA, e foram adotadas em ILPIs durante a pandemia.
- O Dementia Isolation Toolkit (DIT), ou kit de Isolamento para pessoas com demência, é uma iniciativa criada no Canadá para ajudar ILPIs a fazerem o isolamento de forma mais humana durante a pandemia. O kit traz ferramentas como modelos de decisão e planos de cuidado que consideram os dilemas éticos enfrentados pelos profissionais, além de oferecer formas de melhorar a comunicação com os moradores (Iaboni et al., 2022). A maioria das ferramentas do kit são guias, tabelas, checklists e planos que não requerem nenhum tipo de tecnologia para serem implementados – papel e caneta são o suficiente!
- Já a purificação do ar com luz ultravioleta é uma técnica que pode ser usada nos sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado (HVAC). Ela funciona com raios UV que, ao serem absorvidos, iniciam uma reação química chamada fotocatálise. Isso gera uma substância chamada peróxido de hidrogênio, que ajuda a eliminar vírus e bactérias do ar (Jutkowitz et al., 2023). Também é uma tecnologia utilizada de forma ampla em outros contextos, mas foi considerada uma inovação nas ILPIs.
Inovação para todos
Poderia listar muitas outras iniciativas encontradas nas ILPIs, mas acredito que os exemplos acima nos fornecem pistas sobre como um olhar orientado e sensível pode desempenhar um papel muito mais significativo para o sucesso e a sustentabilidade de uma inovação do que a presença de um produto high-tech implementado sem analisar seu fit com o contexto.
No Brasil, existe a grande necessidade de reunir esforços para pensar serviços, produtos e processos que sejam atentos às necessidades das pessoas idosas: vivendo na comunidade ou em ILPIs, com diferentes perfis cognitivos, habilidades funcionais, etnias, classes sociais, orientações sexuais, identidades de gênero.
Para fortalecer ainda mais o movimento, pensar sobre inovação é essencial. Mais do que isso, trocar experiências é essencial, pois, a partir desse movimento, podemos identificar boas oportunidades de aproveitar práticas que eventualmente sejam corriqueiras para alguns contextos, adaptá-las e transformá-las em inovações em outras áreas. Vamos juntos?


