VELHICES LGBTQIA+, SAÚDE MENTAL E DIREITO À CIDADE: o aging in place de corpos dissidentes

O envelhecimento da população LGBTQIA+ constitui um campo emergente de investigação que revela um conjunto de vulnerabilidades sociais, jurídicas e sanitárias ainda pouco abordadas pelas políticas públicas e pela produção científica gerontológica, urbana e neurocientífica [1; 2; 3].

Embora o envelhecimento seja um processo universal, ele não se manifesta de maneira homogênea. No caso de pessoas LGBTQIAPN+ — lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não binárias e outras dissidências de gênero e sexualidade — esse processo é atravessado por exclusões históricas, estigmas acumulados ao longo do curso de vida e barreiras institucionais que dificultam o exercício pleno da cidadania na velhice [4; 5].

No caso da população idosa LGBTQIA+, estudos indicam a prevalência de experiências de solidão, isolamento social, insegurança econômica e discriminação no acesso aos serviços de saúde e assistência social, em proporção significativamente maior do que entre pessoas heterossexuais e cisgêneras [6].

Crédito: Getty Images (2023).

Esses fatores são agravados por um legado de exclusão legal e institucional, como a ausência histórica de reconhecimento das uniões homoafetivas, a patologização das identidades trans e não binárias e a precariedade dos vínculos formais de proteção social. Tais condições contribuíram para a fragilização das redes de apoio social e familiar, dificultando o acesso a direitos fundamentais como previdência, moradia digna e cuidado continuado ao longo do envelhecimento [3].

No Brasil, o envelhecimento LGBTQIA+ é ainda mais tensionado pelas desigualdades estruturais de raça, classe, território e gênero. Pessoas idosas LGBT+ vivenciaram décadas de invisibilidade institucional, repressão e violência estatal, o que impacta diretamente suas trajetórias afetivas, profissionais e familiares [1].

Frequentemente expulsas de seus lares ou comunidades em função da orientação sexual ou identidade de gênero, muitas envelhecem sem o suporte de redes intergeracionais de cuidado, enfrentando dificuldades de inserção em serviços públicos marcados por normatividades cisheterocentradas e práticas discriminatórias [7].

Conforme aponta o relatório Mental Health of Older Adults, da World Health Organization, cerca de 14% dos adultos com 60 anos ou mais vivem com algum transtorno mental [8]. Tal condicionante corresponde a 10,6% do total de incapacidades (medidas em anos de vida ajustados por incapacidade) entre pessoas idosas. Os transtornos mentais mais comuns nessa faixa etária são a depressão e a ansiedade.

Estima-se que um quarto das mortes por suicídio (27,2%) ocorre entre indivíduos com 60 anos ou mais [8]. Quando os estigmas relacionados ao envelhecimento se somam às discriminações dirigidas à orientação sexual ou à identidade de gênero, os riscos de invisibilidade social e de violação da dignidade humana se intensificam consideravelmente [9].

Logo, trata-se de um grupo populacional que depende em larga medida de cuidados formais em saúde, assistência e moradia. Os serviços de saúde e as políticas habitacionais destinadas à população idosa — como as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) — seguem baseadas em padrões cisgêneros e heteronormativos.

Esse enquadramento normativo muitas vezes inviabiliza o reconhecimento da identidade de gênero e da trajetória dessas pessoas, favorecendo o fenômeno da “volta ao armário” na velhice, com impactos significativos sobre a saúde mental e o bem-estar [10; 11].

Mediante ao que foi apresentado, o artigo “Velhices LGBTQIA+, Saúde Mental e Direito à Cidade: Construindo Ambiências Responsivas ao Aging In Place para Corpos Dissidentes”, escrito por Ciro Albuquerque, Mariana Alves e Maria Luiza Bestetti, teve como objetivo identificar os principais obstáculos urbanos e institucionais enfrentados por pessoas idosas LGBTQIA+, além de discutir como o planejamento e a gestão urbana podem contribuir para a efetivação do direito à cidade e a promoção do aging in place.

Dessa forma, a pesquisa foi orientada pelas seguintes questões: “Como o desenho da cidade influencia o aging in place de pessoas idosas LGBTQIA+ ? Como o planejamento e a gestão do espaço urbano podem contribuir para o envelhecimento digno das velhices LGBTQIA+?”.

As categorias identificadas foram:

(i) Barreiras ao Acesso à Saúde para Pessoas LGBTQIA+;

(ii) Condições Adversas Enfrentadas por Pessoas Idosas LGBTQIA+;

(iii) Segurança, Pertencimento e Qualidade de Vida no Envelhecimento LGBTQIA+;

(iv) Barreiras ao Cuidado e Redes de Apoio; e

(v) Habitação, Emprego e Transporte Público nas Cidades.

A análise das condições de envelhecimento de pessoas LGBTQIA+ em contextos urbanos evidencia a persistência de múltiplas barreiras que comprometem o direito ao cuidado, à saúde integral e ao aging in place. Os obstáculos se expressam em diferentes níveis: desde estruturas organizacionais de saúde que negligenciam identidades dissidentes, até desigualdades territoriais e institucionais que reforçam a exclusão social na velhice.

Essas barreiras são agravadas por trajetórias marcadas por discriminação laboral, precariedade habitacional, invisibilidade nas políticas públicas e limitações no acesso à mobilidade urbana segura. Ao mesmo tempo, a presença de redes de apoio alternativas, como as “famílias escolhidas”, revela formas de resistência e reconfiguração dos vínculos afetivos e do cuidado.

REFERÊNCIAS

[1]: ALVES, M. E. da S.; ARAÚJO, L. F. de. Interseccionalidade, Raça e Sexualidade: Compreensões Para a Velhice de Negros LGBTI+. Revista de Psicologia da IMED, 2021.

[2]: CRENITTE, M. R. F. Challenges for the successful aging of LGBT older adults. MOJ Gerontology & Geriatrics, v. 4, n. 4, 19 ago. 2019.

[3]: SIU, A. et al. Examining the Interplay of Psychological Well-Being, Health, and Aging in Older LGBT Adults: A Systematic Review. Sexuality Research and Social Policy, 7 ago. 2024.

[4]: GOH, K. Safe Cities and Queer Spaces: The Urban Politics of Radical LGBT Activism. Annals of the American Association of Geographers, v. 108, n. 2, p. 463–477, 18 dez. 2017.

[5]: FERREIRA, L. A.; COSTA, G. L. P. Interseccionalidade e suas potencialidades nos estudos sobre velhices e envelhecimentos LGBTQIA+ no Brasil. Revista Longeviver, v. 23, n. 5, p.15-25, 2023.

[6]: SAGE, Advocacy & Service for LGBT Elders. Health equity and LBGT elders of color: recommendations for policy and practice. New York: SAGE, 2021.

[7]: GOMES, M. C. de A.; CRENITTE, M. R. F. Desafios para o cuidado das Pessoas Idosas LGBTI+ com dependência. SBGG-RJ | EternamenteSOU | ILC-BR eBooks, p. 94–99, 1 jun. 2021.

[8]: WHO, Word Health Organization. Mental health of older adults. Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: World Health Organization, 2025. Disponível em:<https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-of-older-adults>. Acesso em: 21 dez. 2025.

[9]: BANERJEE, D. et al. Dignity of Older Persons with Mental Health Conditions: Why Should Clinicians Care? Frontiers in Psychiatry, v. 12, n. 1, 12 nov. 2021.

[10]: BEZERRA, M. V. DA R. et al. LGBT health policy and its invisibility in public health publications. Saúde em Debate, v. 43, n. SPE8, p. 305–323, 2019.

[11]: TORELLI, W. R. N.; BESSA, T. A. DE; GRAEFF, B. Preconceito contra pessoa idosa LGBTQIA+ em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI): uma revisão de escopo. Ciência & Saúde Coletiva, v. 28, p. 3123–3135, 10 nov. 2023.

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