No dia 8 de março comemoramos o Dia da Mulher, assim mesmo com letras maiúsculas porque representa mais do que uma simples homenagem para aquecer as vendas no comércio. Mas… o que isso tem a ver com sermos modulares com nossa moradia ao longo da vida, principalmente na velhice?
O protagonismo feminino, crescente desde que as mulheres passaram a ocupar espaços no mundo do trabalho remunerado, anteriormente ocupados por homens, tem sido um processo relativamente lento pela percepção de alguns aspectos facilmente detectáveis. Se tradicionalmente a manutenção da casa, incluindo a elaboração de refeições e cuidado com roupas e calçados, além da atenção aos filhos e parentes idosos, eram atividades consideradas “coisas de mulher”, eximindo os “homens da casa” de colaborarem, os papéis passaram a ser questionados quando a participação no mercado laboral exigiu mudanças de comportamento perante a sociedade.
O cuidado com a família
O uso da tecnologia alterou sobremaneira a educação dos filhos, desde o uso de aparelhos chamados de “babá eletrônica”, através dos quais é possível descansar ou realizar outras atividades mantendo o controle sobre alterações no comportamento dos bebês até sistemas de alarme para administrar medicamentos, organizar ações rotineiras e equilibrar a atenção necessária para o cuidado. Igualmente é possível manter o controle sobre o que as crianças assistem por computadores e televisão ou onde estejam para evitar influências negativas no aprendizado. Com a possibilidade do trabalho remoto, potencializado no período da pandemia pela Covid-19 e considerado um meio de racionalizar custos das empresas com melhora da qualidade de vida dos colaboradores, homens e mulheres puderam permanecer próximos das suas crianças e adolescentes para equilibrar compromissos e objetivos pessoais.
Com parentes idosos, antes comprometendo a atenção de filhas, noras ou irmãs mais novas, é preciso considerar as mudanças nos espaços de vida da maioria das famílias. Imóveis cada vez mais compactos facilitam a manutenção, mas restringem a capacidade de abrigar famílias numerosas, principalmente agregando novos moradores sob a justificativa do cuidado na velhice. Os residenciais para pessoas idosas, antes conhecidos como asilos e lugares para o fim da vida, atualmente oferecem cuidados centrados no morador através de equipes preparadas para diversas características individuais. Apesar de carecermos de alternativas para diferentes condições socioeconômicas da população brasileira, mesmo contando com políticas públicas que oferecem algumas poucas soluções para a população vulnerável, podemos contar com as ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos, empreendimentos filantrópicos, públicos ou privados que oferecem cuidados mais intensivos quando há essa necessidade. A assistente social e mestre em Gerontologia Nadir Menezes tem vasta experiência nesse tema, sendo colunista em Ser Modular.
Por outro lado, já surgem equipamentos intermediários entre a moradia unifamiliar e esses equipamentos de cuidado prolongado, especialmente as residências assistidas, pouco conhecidas no Brasil. Os chamados Sênior Living podem oferecer soluções adequadas para diferentes desejos e necessidades para pessoas maduras que mantêm preservadas as condições físicas e cognitivas, garantindo espaços de vida adequados, acessíveis e com ergonomia que oferece conforto e segurança para os moradores. Há poucos profissionais no Brasil efetivamente preparados para oferecer projetos de qualidade, com destaque ao engenheiro biomédico Norton Mello, da Bioeng, empresa sediada em Curitiba. Seus projetos para equipamentos de saúde marcou a ampliação da oferta de empreendimentos para moradia de pessoas idosas, inclusive com experiências internacionais. Como colunista em Ser Modular e com tese de doutorado sobre esse tema, tem oferecido relatos da sua experiência a quem deseja conhecer um pouco mais sobre Sênior Living.
Moradias colaborativas
Outro modo de morar que começa a ser considerado no Brasil, visto que não há empreendimentos já ocupados e em funcionamento, é o Sênior Cohousing, um tipo de moradia colaborativa que reúne pessoas dispostas a morar sob um regime de autogestão e com compartilhamento de tarefas, conhecimentos e lazeres. O projeto arquitetônico exige um conhecimento íntimo das características que possibilitam e estimulam essas interações, visto que a longevidade saudável tem proporcionado convivências positivas até idades mais avançadas, desde que preservada a capacidade cognitiva. Mesmo em condições de aumento da fragilidade, a proximidade de convivas com objetivos semelhantes pode garantir decisões de eventuais mudanças ou a presença de cuidadores profissionais, de modo a prolongar o quanto possível esse tipo de moradia. A arquiteta e mestre em Gerontologia Rosângela Rachid desenvolveu estudos baseados em profunda pesquisa a respeito do tema, além de conhecer pessoalmente experiências internacionais bem-sucedidas, atualmente desenvolvendo tese de doutorado na perspectiva de elaborar diretrizes para diferentes modos de implantar esse tipo de moradia para pessoas com diferentes condições socioeconômicas. É igualmente colunista em Ser Modular.
Também surgem propostas para morar colaborativamente em um imóvel compartilhado, modo conhecido como coliving. Originalmente é uma solução adotada por estudantes em períodos temporários fora da cidade de origem, porém pode ser uma forma racional para pessoas que vivem sós e que nem sempre conseguem manter adequadamente uma casa ou apartamento, evitando a degradação natural a partir do uso de longo prazo. Certamente, ao compartilhar sala de estar e cozinha quando há um banheiro para cada morador, pode haver conflitos e seria necessária uma conciliação para que consigam conviver. Diferentes temperamentos, que podem criar animosidades em função de desejos igualmente diferentes, agravam a convivência indesejada. No cohousing cada morador tem sua unidade habitacional completa e somente compartilha áreas externas e ambientes comuns, se desejar. No coliving há obrigatoriedade de encontros, mesmo que passageiros. Rosângela e eu estamos participando de uma proposta desenvolvida na Universidade de Málaga, na Espanha, que busca viabilizar esse tipo de moradia com o objetivo de criar renda e garantir salubridade para pessoas idosas que vivem sós, através de cooperativas de vizinhos que reúnem três moradores e lhes oferece renda no aluguel do seu imóvel original. Temos a perspectiva de experimentar essa experiência no Brasil, após conhecer o resultado espanhol.
Perspectivas tecnológicas
As mudanças trazidas pela tecnologia facilitaram sobremaneira os cuidados com os espaços privados e aumentaram os recursos de segurança nas vias públicas, visto que a moradia compreende a unidade habitacional, mas também o entorno que a cerca. Internamente, além do computador para trabalho remoto, vieram os dispositivos de voz, máquinas de lavar roupas “lava-e-seca”, os robôs de serviço, eletrodomésticos de cozinha e fechaduras eletrônicas, entre outros dispositivos. O compartilhamento do trabalho doméstico entre casais e deles com filhos já é recorrente, vistas as rotinas que todos vivem entre trabalho, estudos e permanência em casa.
A Telemedicina foi reconhecida oficialmente como meio de atendimento médico remoto, porém não basta um computador para cada participante. De acordo com o professor Dr. Chao Lung Wen, visa à “potencialização do sistema de Saúde e prepara para a “saúde do futuro”, em um cenário com incorporação de inteligência artificial, casas inteligentes, dispositivos vestíveis e robótica, no contexto de uma sociedade caracterizada pelo envelhecimento da população (pós-2030)”. Com base nesse princípio, a arquiteta e mestre em Gerontologia Mariana Chao desenvolveu um apartamento conceito na cidade de Santos, onde embarcou sistemas inteligentes para o bem-estar do morador, desde agregar dispositivos para que a teleconsulta seja efetiva, até sinalização orientativa na perspectiva do desenvolvimento de demências. Passa por dispositivos de voz que auxiliam nas atividades diárias, incluindo exercícios físicos via monitor de TV, aparelhos de higienização de guarda-roupas e ambientes, fitas reflexivas para orientação durante a noite e outras ideias que permitem a manutenção da autonomia e independência dos moradores. Mariana descreve suas experiências como colunista de Ser Modular.
Assim, o lugar da “rainha do lar” já é compartilhado com outros moradores e facilitado pela tecnologia, porque todas nós temos compromissos laborais, sociais, familiares e também de cuidados pessoais. Mas é na intimidade desse lar que exercemos nossos amores, manifestamos interesses culturais, cuidamos da saúde e, principalmente, vivemos os espaços que significam nossas trajetórias, tão intensas quanto desafiadoras ao longo do ciclo de vida.


