Neuroestética e Aging In Place: entre memória. sensibilidade e pertencimento no habitar
Um homem pode se apaixonar à primeira vista por um Lugar como também por uma mulher. A primeira visão do deserto através de um desfiladeiro na montanha ou a primeira entrada na floresta virgem pode não apenas provocar alegria, mas inexplicavelmente uma sensação de reconhecimento com um mundo cristalino e fundamental que sempre se conheceu” (Tuan,1983, p. 205).
A neuroestética caracteriza-se pelo campo interdisciplinar que investiga como o cérebro percebe, processa e atribui valor às experiências estéticas, como a arte, a arquitetura, a música e as qualidades sensoriais do ambiente. De forma objetiva, trata-se do estudo dos mecanismos neurais envolvidos na experiência do belo, do significativo e do emocionalmente envolvente.
Para isso, utiliza-se um conjunto integrado de métodos, apoiado por tecnologias capazes de identificar, em tempo real, os mecanismos neurais envolvidos na experiência estética, como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI) e a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), que mapeiam áreas cerebrais ativadas; a Eletroencefalografia (EEG) e a Magnetoencefalografia (MEG), que registram a atividade elétrica e magnética do cérebro; além de medidas fisiológicas, como o rastreamento ocular (eye tracking) e a resposta galvânica da pele (GSR), que captam padrões de atenção visual e respostas emocionais.
Apresenta-se como um recém campo científico, formulado a partir de 1990, quando o neurobiologista Semir Zeki passou a investigar as bases neurais da emoção estética, analisando como obras de arte e música ativam regiões específicas do cérebro associadas ao prazer e à beleza (Zeki, 2003). Posteriormente, foi desenvolvida por pesquisadores como Vilayanur S. Ramachandran (1999) e Anjan Chatterjee (2021), que demonstram que a experiência estética não é subjetiva, muito menos de forma aleatória, mas resulta da interação entre:
sistemas sensoriais (visão, audição, tato);
circuitos emocionais (ligados ao prazer e à recompensa);
processos cognitivos (memória, atenção, interpretação e significado).
A neuroestética parte do princípio de que o cérebro não apenas percebe o mundo, mas organiza, seleciona e valoriza estímulos com base em padrões como contraste, simetria, harmonia, novidade e familiaridade (Chatterjee; Cardilo, 2021). Na prática, especialmente no ambiente construído, a neuroestética permite compreender que:
a qualidade sensorial e simbólica dos espaços influencia diretamente o bem-estar;
ambientes podem estimular ou inibir emoções, atenção e memória;
experiências estéticas significativas contribuem para a aprendizagem, o pertencimento e a saúde mental.
Afinal, por que certas experiências nos tocam, nos mobilizam e permanecem na memória — enquanto outras passam despercebidas ao longo de nossas vidas?
No contexto do envelhecimento, especialmente para a gerontologia ambiental, a neuroestética passa a ampliar a compreensão do ambiente construído para além de suas dimensões funcionais, incorporando a qualidade sensível e simbólica das ambiências como elemento central na promoção da saúde mental e da reserva cognitiva.
Estudos pioneiros, como os de Semir Zeki (2003), demonstram que a experiência estética ativa circuitos neurais relacionados ao prazer, à recompensa e à integração sensorial, envolvendo regiões como o córtex orbitofrontal (região do cérebro associada à avaliação de recompensas e punições, na tomada de decisão e na atribuição de valor às experiências) e o sistema límbico (conjunto de estruturas interconectadas responsável pela regulação das emoções, pela formação de memórias e pela resposta afetiva aos estímulos).
Complementarmente, Anjan Chatterjee (2021) propõe que a percepção estética emerge da interação entre sistemas perceptivos, emocionais e de atribuição de valor, indicando que a beleza não é um atributo isolado do objeto, mas um fenômeno relacional entre sujeito e ambiente. Essa perspectiva é particularmente relevante para a gerontologia ambiental, pois reconhece o envelhecimento como um processo situado, no qual o corpo, a cognição e o espaço se co-constituem continuamente.
Ao considerar a dinâmica experiencial do corpo que envelhece, torna-se fundamental dialogar com abordagens fenomenológicas que enfatizam a corporeidade como mediadora da percepção. O envelhecimento implica alterações sensoriais, motoras e cognitivas que reconfiguram a forma como o indivíduo habita e interpreta o espaço (Albuquerque; Santiago, 2026).
Nesse sentido, a qualidade estética do ambiente — que pode ser expressa por meio da luz, das texturas, das cores, dos sons e das formas — pode atuar tanto como facilitadora quanto como obstáculo à orientação, à memória e ao engajamento afetivo do usuário. Ambientes monótonos, escassos em estímulos ou excessivamente complexos tendem a reduzir o interesse exploratório, enquanto ambiências coerentes e legíveis com as capacidades funcionais e cognitivas do indivíduo favorecem a construção de vínculos e a manutenção da independência e da autonomia (Albuquerque; Santiago, 2026).
Tal dinâmica entre corpo e ambiente construído pode ser associada à célebre formulação do neuropsicólogo Donald Hebb — “neurônios que disparam juntos, conectam-se juntos” — que fundamenta a Lei de Hebb, ainda em 1949. Segundo esse princípio, conexões neurais se fortalecem por meio da coativação repetida, o que permite compreender como experiências estéticas significativas, quando reiteradas no cotidiano, contribuem para a consolidação de redes associadas ao bem-estar, à memória autobiográfica e ao senso de identidade (Hebb, 1949).
Nesse contexto, o conceito de enriquecimento ambiental, amplamente validado por estudos experimentais e clínicos, indica que ambientes que oferecem variedade sensorial, desafios cognitivos e oportunidades de movimento corpóreo e interação social estimulam a formação de novas conexões neurais, atenuam o declínio cognitivo e ampliam a capacidade adaptativa ao longo do envelhecimento (Albuquerque; Santiago, 2026).
O Appleby Blue (foto ao lado), caracterizado como um conjunto de habitação social com 59 apartamentos destinados a pessoas com mais de 65 anos, localizado em Southwark, no sul de Londres, pode ser compreendido como um exemplo de “ambiente enriquecido”.
Isso se deve ao fato de que o projeto arquitetônico favorece a convivência entre os residentes, valorizando áreas comuns como jardim suspenso, pátio e cozinha comunitária.
Dimensão estética e aging in place
A casa e a comunidade, sob a perspectiva do aging in place, constituem ambientes centrais na produção e manutenção de experiências significativas que articulam indivíduo, mente e habitar. A permanência no lar transcende a dimensão física, abrangendo a continuidade de práticas, narrativas e vínculos que sustentam o sentimento de pertencimento.
A dimensão estética desses espaços, incluindo objetos significativos, obras de arte, fotografias, memórias materializadas e arranjos espaciais familiares, atua como dispositivo de “ancoragem identitária” — refere-se ao papel que elementos do ambiente desempenham na manutenção do senso de identidade ao longo do tempo — e evocação mnésica — atribuída à capacidade que certos estímulos ambientais têm de evocar memórias, especialmente as autobiográficas (Chatthong; Khemthong, 2026).
Esses elementos atuam como marcadores simbólicos que organizam a percepção do tempo e sustentam a continuidade da identidade, tanto individual quanto coletiva, do residente, especialmente em contextos de maior fragilidade cognitiva — condição que pode ocorrer em pessoas idosas em situação de isolamento social, com quadros de demência, estresse crônico, depressão ou expostas a ambientes desfavoráveis.
Dormitório, Appleby Blue, Londres. A configuração dos dormitórios é orientada pela singularidade de cada residente, incorporando seus pertences, referências culturais, trajetória de vida e demandas específicas, de modo a fortalecer o vínculo com o espaço e o senso de pertencimento. Fonte: BBC Brasil 2025
Além disso, a inserção da arte como prática cotidiana, seja por meio da fruição, da criação ou da participação em atividades culturais, têm demonstrado efeitos positivos na saúde mental de pessoas idosas. Pesquisas na área de estimulação cognitiva indicam que o engajamento artístico incita a articulação entre múltiplos domínios cognitivos, incluindo atenção, memória, linguagem e funções executivas, além de favorecer a regulação emocional e a interação social (Chatthong; Khemthong, 2026; Da Silva, 2026; Petrovsky et al., 2025).
Em escala comunitária, espaços públicos que incorporam qualidades estéticas e oportunidades de expressão cultural tendem a fortalecer laços sociais, reduzir o isolamento e ampliar a percepção de segurança e pertencimento (Albuquerque; Santiago, 2026).
Espaço multiuso, Appleby Blue, Londres. A residência, projetada pelos arquitetos do escritório Witherford Watson Mann, foi a grande vencedora da edição de 2025 do prêmio Stirling, um dos mais importantes do Reino Unido, concedido anualmente pelo Real Instituto de Arquitetos Britânicos (RIBA). Fonte: BBC Brasil 2025
Dessa forma, a neuroestética contribui para a gerontologia ambiental ao oferecer um referencial que integra corpo, cérebro e ambiente em uma perspectiva dinâmica e relacional. Ao reconhecer o potencial das experiências estéticas como moduladoras da plasticidade neural e da qualidade de vida, torna-se possível orientar práticas projetuais e políticas urbanas que valorizem não apenas a acessibilidade física, mas também a riqueza sensorial, simbólica e afetiva dos espaços.
Em última instância, trata-se de compreender o envelhecimento não como um processo de perda, mas como uma trajetória que pode ser continuamente nutrida por ambientes que estimulam o aprender, o sentir e o pertencer.
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, C. F. H.; SANTIAGO, Z. M. P. Neuroarquitetura, Ambientes Enriquecidos e Cohousing. Revista Projetar – Projeto e Percepção do Ambiente, v. 11, n. 1, p. 57–73, 21 jan. 2026.
CHATTERJEE, A.; CARDILO, E. Brain, Beauty, and Art. [s.l.] Oxford University Press, 2021.
CHATTHONG, W.; KHEMTHONG, S. Arts- and creative-based interventions for older adults: A scoping review of storytelling, cognitive health, and neurophysiological outcomes. Educational Gerontology, p. 1–16, 19 jan. 2026.
DA SILVA, T. B. L. et al. SUPERA® Cognitive Stimulation Study – effectiveness of a multi-component cognitive stimulation program for cognitively unimpaired older adults: A randomized controlled clinical trial. International Psychogeriatrics, p. 100178, 9 jan. 2026.
HEBB, D. The organization of behavior: a neuropsychological theory. [s.l.] New York, John Wiley And Sons, 1949.
PETROVSKY, D. V. et al. Longitudinal association between creative arts participation with cognitive function in late life. International Psychogeriatrics, p. 100048, fev. 2025.
RAMACHANDRAN, V.; HIRSTEIN, W. The Science of Art: A Neurological Theory of Aesthetic Experience. Journal of Consciousness Studies, vol. 6, n. 6, p. 15–51, 1999.
TUAN, Y. F. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. [s.l.] São Paulo: Difel, 1983.
ZEKI, S. Inner vision: an exploration of art and the brain. [s.l.] Oxford Oxford University Press, 2003.