Pessoas idosas e as eleições: a realidade diante das promessas

De acordo com o presidente do ILC Brasil Dr. Alexandre Kalache, as pautas de programas dos candidatos à presidência, ao congresso nacional e às assembleias legislativas têm negligenciado a presença de pessoas com mais de 70 anos nas urnas, já que o voto não é obrigatório. Segundo ele, o Tribunal Superior Eleitoral aponta que 7,5% do total de eleitores aptos estão nessa faixa de idade, tornando significativo que essa população esteja presente para definir quais candidatos podem possibilitar políticas públicas efetivas neste país continental e que tem olhado aos poucos para pessoas idosas em vulnerabilidade social e econômica.

Escuta-se de alguns a intenção de trabalhar em prol das pessoas idosas, mas quando muito, focam na saúde pública. Importante sem dúvida, mas morar em condições de dignidade é um direito fundamental, tal qual é a educação de qualidade para crianças, adolescentes e jovens que ingressam no mundo do trabalho em condição de competir com outros de quaisquer classes sociais. A qualidade da moradia diz respeito à prevenção de doenças, à inclusão social e a oportunidades de crescimento cultural ao longo do envelhecimento, culminando na velhice que fica, a cada dia mais, condicionada à história de vida de cada indivíduo.

Políticas públicas habitacionais

Estamos vivendo mais e melhor, sendo que a ideia da velhice inútil já não é mais tão propalada, vista a presença crescente de centenários em diversos estratos sociais. É preciso considerar que temos políticas habitacionais e que estão se espalhando pelo Brasil, mas ainda são insuficientes. A ideia de permanecer na própria casa deve ser sempre estimulada, desde que não signifique solidão e abandono, contando com o suporte da comunidade e de serviços básicos, tais como atenção domiciliar à saúde, acesso fácil a equipamentos culturais e de lazer, transporte adequado pelo treinamento dos motoristas e pela qualidade dos veículos, além de espaços públicos caminháveis e com mobiliário urbano condizente com as necessidades de pessoas mais frágeis. Parece fácil elaborar essa lista de condições para que haja “aging in place”, mas tudo depende de continuidade, assistência permanente, participação social com o protagonismo do cidadão idoso e canais de escuta efetiva das percepções dessas pessoas para que haja constante revisão e aperfeiçoamento.

As comissões dos direitos das pessoas idosas, quer seja em nível municipal, estadual e nacional, deveriam oferecer caminhos para soluções mais amplas. A formação composta por representantes do governo e da sociedade civil carecem de um suporte técnico que transforme as discussões dos problemas em soluções práticas, viáveis e replicáveis. A sustentabilidade das políticas públicas depende de mecanismos que não sofram influências de partidos políticos ou interesses pessoais que, muitas vezes, acabam por tornar bons projetos muito mal aproveitados por serem soluções iguais em contextos diferentes, mesmo sendo no mesmo estado, mas desconsiderando cultura local, características do público atendido e do terreno onde o conjunto habitacional para pessoas idosas é implantado.

Arquitetura como diferencial

A participação ativa de pessoas para as quais determinados programas são direcionados pode tornar o empreendimento apoiado na tríade que fundamenta novas soluções: deve ser desejável, viável e sustentável. Não basta ocupar um terreno com 20 ou 30 unidades habitacionais lado a lado e com uma grande área comum no centro, julgando que pessoas que não se conhecem formem grupos de amigos entre vizinhos, criando vínculos sociais duráveis. A configuração dos conjuntos habitacionais certamente pode estimular aproximações se houver convivências mesmo transitórias. Julgar que aparelhos de academia ao ar livre são desejáveis já demonstra que esse tipo de decisão vem de quem não convive com o público para o qual são construídos esses lugares, assim como não há uma preparação para tornar aqueles 20 ou 30 moradores vizinhos que se sintam incluídos naquela comunidade.

Enfim, ainda há muito a se discutir sobre políticas públicas habitacionais, especialmente no conceito que se deseja oferecer e na forma como isso pode dar frutos. Pessoas idosas vulneráveis social e economicamente muitas vezes vêm de contextos traumáticos de abandono e solidão, não sendo razoável esperar que consigam criar laços de amizade pelo simples fato de serem vizinhos. É preciso estimular os encontros, mesmo que sejam transitórios, e o interesse por atividades em comum no lugar que consideram seus territórios. Só assim poderemos ter soluções sustentáveis e que transformem os espaços de vida mais além do que somente o privado.

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