Por que não vemos mais cadeiras nas calçadas?

Frequentemente abordamos que uma das causas de os idosos andarem menos nas ruas e, portanto, tornarem-se mais “caseiros” e desistindo de atividades em ambientes coletivos, é a violência urbana decorrente da crescente falta de escrúpulos nos crimes. A cada dia esses fatos assumem mais espaço na mídia em geral, quase como se houvesse certo prazer com o horror e o alívio de saber que a tragédia foi com o outro e não perto de nós. Enfim, é notícia que vende e, portanto, vale o investimento em reporta-la com detalhes e veicular fatos e hipóteses.

A escritora americana Jane Jacobs publicou, em 1961, o livro “Morte e Vida nas Grandes Cidades”, discutindo ideias sobre a tendência dos urbanistas em pensar as cidades a partir da segregação de usos, o que altera o uso das calçadas e interfere na preferencia pelo comércio de rua. Além disso, já apontava que essas decisões implicavam no uso mais dependente dos transportes automotivos, o que determina ruas mais largas que permitem maior fluxo de veículos. Trouxe a instigante questão do controle social, pois quanto mais pessoas nas ruas, caminhando e convivendo no bairro, utilizando o comércio que o movimenta e criando familiaridade e real vizinhança, menos oportunidades para a presença de estranhos mal intencionados.

Certa ocasião recebi uma solicitação de projeto: integrar as fachadas das casas de uma quadra específica de bairro residencial em Campo Grande-MS com as calçadas, ampliando seu uso para os próprios moradores, que poderiam conviver mais a partir dos espaços compartilhados em ambientes de estar e atividades lúdicas. Incentivaria encontros intergeracionais, a solidariedade natural pela proximidade e a sensação de segurança por detectar a passagem de estranhos. Carlos, o cliente, intitulou o projeto como “Vizinhos: parentes por parte de rua”, o que me motivou muito! Mas vieram os problemas: a prefeitura não aprovaria o controle de acesso de carros, pois não se concebe a descontinuidade da rua, ao que concordamos. Pensou-se em, simplesmente, marcar as duas pontas da quadra com pórticos sem portões, definindo que ali existiria uma proposta coletiva e, quem sabe, a ideia poderia ser disseminada em outros conjuntos. E a segurança? Seria colocada uma guarita harmonizada com a proposta, que poderia até mesmo ser móvel e estar em pontos diferentes a cada semana. A presença de um guarda significaria preservar o lugar contra o vandalismo, mas também significaria mais custo. Ora, essa obrigação é do Estado!!!

Enfim, cadeiras na calçada estão comprometidas pelo medo do outro, infelizmente. Estamos condicionados a procurar condomínios, shopping centers e os edifícios comerciais são totalmente vigiados. Portanto, nós mesmos nos afastamos da rua por medo, comodismo ou até por excesso de individualismo, pois podemos optar por espaços segregados se pudermos pagar. De quem é a culpa da ousadia dos bandidos?

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