Quais são os melhores olhos para o mundo: a TV ou a janela?

Sou tutora de estágio com estudantes de Gerontologia no quarto ano em uma instituição de idosos de São Paulo e, assim como outros colegas relatam em suas experiências em outros locais de mesma natureza, muitos moradores passam grande parte do seu tempo livre assistindo programas de televisão, raramente discutindo os assuntos ali tratados. Até mesmo a expressão dos olhares, em muitos casos, não refletem uma atenção focada no conteúdo, parecendo somente que olham para a tela mas não veem o que está passando. Numa experiência de pesquisa um estudante contradisse a minha afirmação de que a TV, para alguns, era uma forma de fugir da convivência, quase um disfarce para o tempo passar sem que houvesse perturbação. Segundo ele, naqueles casos os programas de TV funcionavam como janelas para o mundo, já que a liberdade de andar na rua estava limitada a curtas caminhadas e a restrição de outros sentidos já não garantia segurança.

Ao usar o termo “janela para o mundo”, fiquei pensando que a função original das janelas, algumas tão grandes que se tornam portas, aos poucos começou a se perder ao temermos o outro que perambula na cidade. Outros que são como nós: não os conhecemos e eles não nos conhecem, e todos temem os mal-intencionados, deixando de vagar livremente e de assistir os momentos que podem surpreender, tal como visualizar uma bela paisagem criada pelo tapete de flores que caíram da árvore, ou um grupo de crianças brincando e correndo, estimulando olhos e ouvidos. Assim, aos poucos, fomos elevando nossos muros, usando portões pesados, colocando elementos cortantes nas possíveis passagens, tal como os senhores feudais faziam nos seus castelos para se protegerem dos inimigos. Com isso, a janela, já gradeada para que não houvesse invasão, passou a evitar também a visão da rua e, por consequência, da dinâmica da cidade. O termo “perspectiva” vem do latim perspicere – ver através, ou seja, ver três dimensões em duas. Se não temos janelas, vamos de TV.

Observando as moradias para idosos que conheço, a grande maioria mantém muros altos que isolam a visão das vias públicas. De fato, é preciso preservar a privacidade de pessoas mais frágeis, que podem estar sujeitas a estímulos mal-intencionados e que, por outro lado, têm famílias que as preferem discretamente “guardadas”. Portanto, medida de segurança antes de tudo. Mas… E a função original da janela, que além de deixar a luz e o sol entrarem, também servia de apoio para o contato com o mundo externo? Praticamente se perdeu: raramente há pessoas olhando através delas, porque o pouco que se pode ver é mais interessante pelo lado de fora. Serestas que acordavam pessoas amadas, sacadas que davam acesso aos namoros furtivos e outros elementos arquitetônicos significativos hoje são paredes de vidro, servem mais para proteger do que para ver. Pela TV podemos fazer a volta ao mundo sem sair da cadeira, talvez meu aluno tenha mesmo razão…

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