Abandonamos a escolha criteriosa de nossa moradia assim como deixamos de escrever cartas à mão?

O ser humano, em sua maioria, sempre sonhou com a casa especial, aquela que reflete seu jeito de ser, seu estilo e sua forma de pensar. Nem sempre é um sonho concretizado, certos casos dependem de investimentos que podem dificultar muito essa meta. A facilidade de adaptar-se faz com que partes do sonho se concretizem, através de escolhas com alternativas mais acessíveis, que acabam por atender a esses desejos. Seria essa uma forma romântica de pensar o meu lugar?

A tecnologia tem oferecido meios de facilitar atividades nas mais diversas áreas da vida, possibilitando comunicação mais rápida, agilidade para cozinhar e manter a casa, meios de produção mais eficientes e materiais alternativos com preços menores. Com isso, a descartabilidade se apresenta como meio de renovação constante de objetos e revestimentos para mudanças constantes de aparência. Reformulo a pergunta anterior: seria essa uma forma fria e impessoal de pensar o meu lugar?

Talvez tenhamos tomado a possibilidade de variar estilos de roupa e decoração da casa com tanto entusiasmo que nem percebemos o quanto diminuíram as oportunidades de encontro, porque ao mesmo tempo que essas facilidades agilizam nosso dia acabamos por deixar de lado também pequenos gestos que garantiam contatos mais significativos dos que temos via e-mails ou redes sociais. É atribuída a Rubem Alves a seguinte reflexão: “Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel.” Ou seja, também descartamos pessoas ao deixarmos de lado hábitos que personalizam relacionamentos significativos.

Pensamos nossas casas para o conforto, segurança, bem-estar, convivência familiar… Será mesmo? Os espaços estão cada vez menores, mas os móveis tornam-se proporcionais para atender essa demanda. Grandes mesas de refeição já não se justificam, porque ocupam permanentemente um espaço precioso e que raramente é usado, embora reuniões de família possam acontecer com muito sucesso em restaurantes ou espaços gourmet, solução que os arquitetos têm oferecido em edifícios para que se tornem extensões da unidade habitacional com área reduzida. Se temos alternativas nesse sentido, é preciso reconhecer que, sem um programa arquitetônico adequado, receber um idoso que sai da sua casa ou mudar para a casa dele não garante a aproximação afetiva, somente a física. Portanto, considerar residências coletivas como opções ruins exige, antes de tudo, que se avalie se realmente o principal interessado, o ser amado já idoso, sobre quem se tem a responsabilidade de conduzir para soluções melhores possíveis, receberá positivamente essa indicação. Não se escolhem moradias assistidas para resolver os problemas das famílias, mas para decidir um impasse do idoso que ficou só e precisa de atenção especializada. Essa é a verdadeira mensagem escrita nas entrelinhas.

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