As decisões sobre moradias adequadas podem depender de jogos de adivinhação?

Certamente essa seria a pior maneira de se tomar uma decisão tão grave e as consequências funestas de se desconsiderar questões pessoais acabariam em desastre. Em diversos textos anteriores, tenho abordado que o próprio idoso deve ser consultado e a ele devem ser expostas as alternativas, para que a decisão conjunta resulte em paz e harmonia. Quando a participação é impedida por falta de capacidade cognitiva, ainda assim haverá outros meios de se verificar como seria essa interação, ao praticar a empatia, colocando-se no seu lugar.

Ao longo da vida, normalmente marcamos nossa passagem com características pessoais, tais como escolhas quanto à aparência, hábitos culturais e desenvolvimento de habilidades. Mesmo que a memória falhe, nossa marca se perpetua na convivência com pessoas queridas e através de registros de imagem. Recentemente foi viralizado pelas redes sociais um vídeo que registrava a reação de um idoso introvertido e afastado da convivência entre pares na moradia coletiva em função de doença de Alzheimer. Ao ouvir uma determinada música, sucesso na sua juventude, começou a cantar delicadamente e seu olhar, antes vazio, encheu-se de brilho. Somos capazes de armazenar boas lembranças por muito mais tempo do que percebemos.

Se o idoso participa da decisão, é preciso ter cuidado para que evitemos impressões preconceituosas sobre as opções disponíveis. Em geral, na tentativa de colaborar, direcionamos as opiniões que tomaríamos se estivéssemos no centro da discussão. Se penso que um residencial coletivo não é uma boa solução, preciso oferecer a opção de cuidado, seja trazendo o idoso junto comigo ou garantindo que ele tenha todo o apoio profissional possível, e geralmente tem um custo financeiro e social alto. Dizer que desejamos nossos entes queridos idosos terminando em suas próprias casas significa garantir seu sustento e funcionamento, e isso deve estar de acordo com a disponibilidade de cada um que colabora nessa questão. Caso contrário, é preferível estabelecer uma postura mais flexível.

Se a tendência a decidir por um residencial coletivo estiver prevalecendo, cabe visitar várias opções, especialmente as que estejam favoráveis ao acesso pela família e amigos, para que não haja desconexão ou fragilização dos vínculos. Em geral pensamos que fica fácil um deslocamento que dependa de veículo próprio e isso pode se tornar mais difícil conforme a família se transforme com novas necessidades e desejos. Verificar a possibilidade de personalizar o lugar privativo, no mínimo com fotografias ou objetos de estima. Além disso, observar quais atividades são propostas e com qual frequência, evitando momentos sem distração. Assim, o processo todo vai se tornando tranquilo e incorporado às rotinas de todos, facilitando a sequência da vida em harmonia, diminuindo os riscos de tristeza e solidão.

 

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