Conservar objetos decorativos pode manter a memória quando nos distanciamos da juventude?

O belíssimo filme “A Juventude” (ITA/FRA/GB/SUI, 2015), dirigido por Paolo Sorrentino, com Michael Caine e Harvey Keitel, conta sobre o período de férias de dois amigos com quase 80 anos, em um hotel terapêutico. Um é maestro e o outro cineasta e, com outros personagens secundários, discorrem sobre a passagem do tempo. Por meio de imagens e textos metafóricos, destacam que a proximidade com o fim faz esquecer o começo, além de perceberem que todo o legado que julgam ter construído pode não ter valido o esforço, porque abriram mão de momentos, amores, desejos e relacionamentos. A certa altura é dito que somente quem cria entende completamente o significado da criação, muitas vezes elogiada mas compreendida apenas superficialmente, o que a torna famosa mas não realça a essência do criador.

Ao longo da vida estabelecemos relacionamentos, produzimos elementos a partir de temas que dominamos, colecionamos representações que nos são caras e elas, geralmente, são produtos concretos que fazem parte da nossa memória. Quando ambientes particulares são compostos com fotografias, esculturas, livros e outros objetos, geralmente permanecem aqueles que remetem a momentos especiais, que podem manter viva a memória da juventude. Fotos de família podem ocupar grandes áreas de parede, sendo que tanto fotos emolduradas uma a uma ou em composições múltiplas podem ser colocadas em espaços como corredores, dormitórios e até sala de estar, apesar de representarem a intimidade dos moradores. Outros elementos são guardados pela sua importância em algum momento da vida: uma música, gravada em vinil ou CD, um filme de família ou comercial, em DVD. Objetos de viagem, livros, utilitários com mensagens e peças de artesanato. Não importa o quê e nem porquê, quem o mantém o tem na memória e deseja preservá-lo.

Quanto ao filme, o maestro insiste que a música criada por ele não teria uma cantora à altura, pois intimamente ele guardava a certeza de que só deveria ser cantada pela esposa, agora demenciada, sobre quem ele mantinha apenas a lembrança e por esse motivo não a visitava mais. A filha não compreendia a aparente frieza dele quanto à mãe, julgando ser simples desprezo, mas a admiração que ele guardava era tão significativa na sua carreira que depositava nessa lembrança a razão do seu sucesso. Do mesmo modo o cineasta, discutindo o roteiro com sua equipe, somente via sua musa no papel principal e, quando ela avisa que não aceitará porque prefere um contrato de TV mais rentável, sua frustração destrói toda a base do seu trabalho, pois a associação era muito significativa na sua vida. Assim, cabe respeitarmos os valores que idosos elegem como importantes para acompanha-los em suas casas, sejam as originais ou as que são definidas como mais adequadas. Cada um sabe onde o “calo aperta” e quais flores são mais perfumadas para despertar sua memória.

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