O que representa “dar adeus” ao ano velho e manter as mesmas rotinas domésticas mesmo tendo envelhecido mais um ano?

Hoje, a grande maioria dos brasileiros comemora o final de um ano muito difícil, não só pelos necessários ajustes nas despesas familiares, mas principalmente pela perplexidade de receber tantas notícias sobre corrupção, falta de ética, crueldade e outras atribuições consideradas tão importantes àqueles que pretendem participar de uma sociedade justa, equilibrada e com oportunidades. Foi um ano difícil, mas ouvem-se previsões que apontam para a recuperação da economia e para a readequação no modo de viver, considerando a longevidade que já experimentamos, crescente a cada ano. Dito isso, manifesto esta última reflexão do ano, depois de ter experimentado profícuas discussões em estudos na universidade, além de atividades de pesquisa e extensão com partícipes diversos não só em idade, mas também em pontos de vista.

Começo por apontar nossas cidades como lugares que precisam ser vistos de modo mais detalhado: usamos as calçadas como lugares de refúgio, temendo os poderosos veículos motorizados que se justificam pela pressa de nos deslocarmos para tudo, desde trabalho e obrigações domésticas, até lazer e convivência social. As alternativas para caminhar ou usar modos mais individuais estão fadadas a áreas menores, menos seguras e intimidadas pelas regras de um trânsito intenso a ponto de esconder belas paisagens, naturais ou edificadas. Corremos tanto que precisamos pistas para esse deslocamento… e o que vemos no caminho?

Os bairros, condicionados por estas regras nunca escritas mas assumidas pacificamente pelos cidadãos, são definidos mais por limites construídos do que por convivências, marcados mais pela individualidade do que pelo compartilhamento de objetivos, afazeres e interesses. Pouco conhecemos nossos vizinhos, pouco fidelizamos o comércio próximo que nos abastece, e pouco consideramos que usar ativamente o bairro onde moramos pode transformar a sensação de insegurança em um controle social pela presença constante de pessoas com os mesmos objetivos, em especial os que se referem a viver em paz. Vivemos tão preocupados com o cumprimento de tarefas que não paramos para conversar… e quem encontramos no caminho?

Nossas moradias, aquelas que idealizamos, ajustamos às nossas possibilidades e onde acabamos por nos acostumar, ficam paradas no tempo e apenas sujeitas a manutenções essenciais, embora nosso grupo familiar se transforme e nossos corpos envelheçam. Mantemos móveis e objetos inúteis, arrumamos um “cantinho” para roupas, papéis, e instrumentos que não servem mais, todas lembranças de outros momentos das nossas vidas. Juntamos coisas que ocupam espaços que seriam úteis de outras maneiras… e quem somos nós neste caminho?

Despedir-se de um ano não contribui para o novo, a não ser que se encontre claramente o papel de quem somos na cidade, no bairro e em nossas casas. Manter a mesma rotina de vida não condiz com o que nosso corpo avisa, aos gritos: O ANO VELHO SE VAI, MAS TAMBÉM ESTAMOS MAIS VELHOS! O que construirmos continuamente para o bem-estar na velhice será nossa moradia, e disso não podemos nos despedir.

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