Que emoções estão associadas ao lugar da moradia para que seja uma referência na vida de um idoso?

Sabe-se que moradia é um termo que se expande para além das paredes da residência, extrapolando o limite do espaço privado e intercalando-se com o coletivo, seja pelo uso das áreas comuns em um edifício, seja pela responsabilidade que os usuários de imóveis têm com a calçada que faz fronteira com a via pública. Pelo dicionário encontramos que “morar” é o contrário de “errar, vagar”. Ou seja, significa permanecer por algum tempo em um lugar que, se composto por imóveis próximos, caracteriza um bairro, também conceituado como aglomerado de habitações homogêneas e com características próprias dentro de uma cidade ou como um conjunto de pessoas que habita nesse aglomerado de habitações.

Depreende-se que todo esse espaço é moradia, tornando-se um lugar marcado por significados que pontuam a história dos habitantes. No conceito de Ageing in Place destaca-se a importância da familiaridade para quem envelhece no seu lar, considerando o entorno imediato tão importante quanto a criação de vínculos com as pessoas que compõem o círculo social. Nossa saúde emocional está diretamente associada à segurança que se desenvolve nesse ambiente, desde saber da presença de vizinhos até poder buscar um produto ou serviço desejado nesse bairro. Manoel de Barros (Memórias Inventadas: A Segunda Infância, 2006) magistralmente escreveu:

“… que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”

Gostar e sentir-se confortável no lar vai depender da importância desse lugar, medida pelos vínculos criados com seus elementos mais significativos: memória, relações sociais, facilidades… A qualidade da moradia pode ser percebida através de um imóvel adequado, mas também pelas condições de uso do espaço urbano e pela facilitação dos encontros. Cada elemento atribui importância ao lugar a partir da emoção do morador e, portanto, tanto faz se a residência é unifamiliar ou coletiva, importa como o sentimento de pertencer está construído.

Envelhecemos em nossos lares não necessariamente na mesma casa, mas no lugar onde haja a familiaridade que garanta segurança para reconhecer onde se está. É natural que haja participação ativa no processo de mudanças gerado pela evolução urbana, pois todo cidadão atua nesse conjunto e é protagonista no seu papel social. No ambiente privado, a inovação traz necessárias adaptações para que a vida acompanhe esse processo, com mais tecnologia e com novos desejos e necessidades. Nesse contexto, nossa saúde emocional depende da sensação de pertencimento, sendo elemento primordial para o conforto na moradia. Reconhecer a associação desses aspectos ao bem-estar pode garantir boa qualidade de vida no contexto urbano onde o morador está inserido, para envelhecer no seu lugar, identificar-se como parte dessa composição e, finalmente, para o real exercício da cidadania.

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