Calçadas seguras e confortáveis para idosos dependem somente de um piso regular e grandes larguras?

Há alguns dias atrás, vivi algumas experiências interessantes sobre o uso de calçadas em trajetos rotineiros. No caminho entre a estação de metrô e a minha casa, a calçada deve medir cerca de 3m de largura, sendo que uma faixa de 80cm alterna canteiros com plantas, postes e outros equipamentos urbanos, implantados ao longo do caminho. Assim, restam cerca de 2,20m livres, espaço suficiente para que duplas de pedestres não se esbarrem vindo em sentidos opostos. Ao passar nessa calçada, encontrei quatro mulheres vindo no sentido oposto andando lado a lado, três delas bem jovens e, apesar do meu esforço em me colocar bem junto ao muro, a pessoa que ficou exatamente na minha frente não aparentou qualquer intenção em dar espaço, como que esperando que eu me desintegrasse para permitir sua passagem. Minha sensação foi de absoluta invisibilidade…

Ontem passava pela mesma calçada, em outro ponto do percurso, onde há uma escola de ensino médio em que os alunos utilizam a calçada para se reunirem nos intervalos, estimulados por uma pequena barraca de pastéis e um vendedor de doces que, juntos, tomam conta de uma parte ainda maior dos 3m de calçada. Ocorre que os grupos se amontoam no meio do caminho, o que impede uma caminhada em linha reta e induz os transeuntes a participarem de uma verdadeira gincana, visto que é preciso evitar os esbarrões e escolher a melhor alternativa para cruzar os obstáculos, algumas vezes preferindo descer do meio-fio para a ciclovia, onde se disputa o espaço com as raras bicicletas que passam por ali. Outra vez, sensação de invisibilidade…

Para que o relato não pareça uma simples crítica ranzinza aos jovens que utilizam calçadas, testemunhei uma senhora com aparentes 75 anos entrando com certa pressa no vagão do metrô, assim que a porta se abriu. Já demonstrara a necessidade de exercer seu suposto direito a ter acesso prioritário, ao procurar um lugar à frente dos passageiros que já esperavam antes da sua chegada e, ao ser liberado o ingresso, entrou prontamente, mas estancou logo à entrada, como se estivesse sozinha, desconsiderando que todos aqueles a quem havia ultrapassado antes estivessem também dispostos a entrar, assim como ela. Novamente me senti invisível.

Em todos os casos, o acesso foi prejudicado não por pisos irregulares ou por larguras impróprias de passagens. Nem mesmo havia a necessidade de apoios em barras ou corrimãos, tal como preconiza a norma brasileira de acessibilidade. Simplesmente faltou a atenção desses usuários para com seus próprios pares, pois viram apenas a si mesmos, sozinhos ou em pequenos grupos. Tal como em “A Revolução dos Bichos” de George Orwell, todos são iguais até que alguns se sentem mais iguais do que os outros, em atitudes egoístas e que desconsideram deveres, lembrando somente de direitos. Afinal, segurança e conforto depende também de enxergar o outro e respeitar seu espaço, permitindo acesso irrestrito a todos.

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