Quais são as principais características de uma casa arrumada para que seja confortável além de limpa?

No poema intitulado Casa Arrumada, Carlos Drummond de Andrade magistralmente elenca quais são estas características:

“Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz. Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…”

Sem dúvida, arrumar a casa é, principalmente, mantê-la em boas condições de utilização, evitando o surgimento de vetores de doenças e com ordem entre seus objetos. Mas todo excesso pode ser questionado, para que seus ocupantes não envelheçam reféns na própria moradia…

“Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida… Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.”

A manutenção da casa não deveria ser uma prerrogativa para o desuso. Manter a ordem jamais significa que os ambientes serão imutáveis, cenários sem atores para receber as visitas que nunca virão e os familiares que não se reunirão, evitando reformas e sem perspectivas de renovação.

“Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto… Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos… Netos, pros vizinhos… E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.”

Casa com vida tem também odores, os que vêm da cozinha quando a fome aperta e os que vêm do banheiro que atende às necessidades diárias. Um e outro são substituídos por outros odores, e assim se sucedem as experiências. As quinquilharias e os objetos valiosos que contam a história dos moradores, sejam expostos ou guardados em armários, personalizam o lugar, demonstram quando e o quê é importante para eles.

“Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela… E reconhecer nela o seu lugar.”

Envelhecemos em nossas casas, mesmo que sejam imóveis diferentes, mas o que somos se apresenta onde quer que estejamos. Uma casa arrumada será confortável se for usada para atender desejos e necessidades dos moradores, incluindo a convivência com eventuais visitantes. Sentir-se acolhido é estar seguro e abrigado, animado por composições humanizadas que refletem momentos especiais, especialmente na velhice.

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