A familiaridade com a vizinhança garante suporte social com a permanência no mesmo bairro?

Temos refletido sobre as questões da moradia e destaco sempre a importância do bairro quando pensamos na inserção da unidade habitacional no meio urbano. Mais ainda, mesmo em condomínios ou em residenciais especializados, o entorno estabelece rotinas marcantes que podem definir a qualidade nos relacionamentos com a vizinhança. O conceito de aging in place pode ser visto apenas como o envelhecer num lugar, mas também se refere a esses encontros, que muitas vezes constroem uma rede de suporte social importante e que transmite confiança e segurança, especialmente na velhice. Considera a familiaridade com pessoas e lugares, criando o senso de pertencimento.

Ao conhecer um dos textos do professor Fernando Teixeira de Andrade, logo percebi que nesse conceito há uma questão a ser considerada: a dinâmica da cidade contemporânea transforma-se, assim como a população que circula pelo bairro. Mesmo que as relações espontâneas e produtivas sejam construídas, é preciso considerar novos percursos e descobertas.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Em bairros de predominância residencial, os pequenos comércios estabelecem uma relação de confiança com seus principais consumidores. Compreende-se que a segurança pública será tanto maior quanto mais pessoas estiverem circulando, mas ainda assim há a presença de estranhos e o risco da violência. Definir percursos rotineiros, seja em função de hábitos de consumo ou pela racionalidade de distâncias menores, dificulta o contato com as mudanças que trarão novos lugares e pessoas. Hábitos rígidos podem ser repensados, tal como descartamos roupas que substituímos por outras, com diferentes formas e cores. Afinal, além do desgaste há as mudanças do corpo e o surgimento de outras necessidades. Também a cidade se transforma e oferece outros atrativos ou desafios a serem enfrentados.

Considerar que a rede estabelecida no bairro garante segurança é apenas parte de um exercício importante para evitar a solidão. Também é preciso atualizar-se, buscar caminhos alternativos e aproximar-se de realidades paralelas, estourando a “bolha” que se estabelece na zona de conforto do que é conhecido e assimilado. Porteiros em edifícios, atendentes de mercados e padarias, vizinhos que passeiam com seus cães e crianças que vão e vêm de escolas, são todas importantes referências para que haja familiaridade, mas estar atento para mudanças torna o impacto menos incômodo. Toda mudança causa expectativas, nem sempre positivas. Portanto, envelhecer no lugar não significa ficar à margem, sem considerar que haverá mudanças também no próprio desempenho. Manter amigos próximos dependerá de suas capacidades e competências, além de suas próprias transformações familiares, o que não garante o suporte social tão desejado.

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