Como assegurar conforto na moradia de pessoas com deficiência quando seus cuidadores se ausentam?

Em 2005, tive o prazer de conhecer um grupo de pessoas ativas na luta em favor de políticas públicas voltadas a pessoas com deficiência, que participavam do Fórum de Residências Inclusivas – FRI. A proposta referia-se a criar meios de garantir moradia adequada àqueles que perdessem cuidadores originais e ficassem desprotegidos, sem o suporte social de parentes ou amigos que assumissem o cuidado. Na época conheci dona Maria Amélia, que me descreveu a condição do seu filho com Síndrome de Down e já com mais de 50 anos, preocupada com o fato de ser idosa. Cuidava do marido, que se restabelecia de um câncer, e já tinha alguma dificuldade de caminhar sem o apoio da bengala. O filho era meigo e gentil, segundo ela, a ponto de abrir a porta para qualquer pessoa, e essa era a questão mais angustiante: como seria quando faltasse? Anos depois ele faleceu antes dela, mas sua história se mantem em minha memória por certamente representar a de muitas famílias.

O filme “De Porta em Porta” (EUA, 2002) conta a história de Bill Porter, um vendedor bem-sucedido que faleceu aos 81 anos em 2013. Mas o que surpreende é o fato de ter nascido com paralisia cerebral, o que o limitava fisicamente, inclusive com dificuldades na fala. Mas o incentivo da mãe o impulsionou a buscar autonomia através de uma vida produtiva, insistindo que tivesse sempre paciência e persistência. Em 1955 conseguiu um emprego de vendedor e conquistou uma clientela fiel, com a qual criou uma rede de confiança e estabeleceu um vínculo de fidelidade que sustentou seu trabalho por 40 anos. Dependia de ajuda para completar seu vestuário diário, até que a mãe apresenta indícios de demência, tornando-se inábil para seu próprio autocuidado. Bill passa a buscar alternativas de moradia adequadas para o cuidado dela até sua morte, mas ao mesmo tempo, estabelece estratégias para continuar trabalhando, através da ajuda de amigos que abotoam os punhos da camisa, amarram seus sapatos e atam sua gravata, diariamente, tal como sua mãe fazia antes. Continua morando só embora contrate uma assistente, que passa a zelar por suas necessidades profissionais e pessoais, por muito anos.

Falar em moradia na velhice é considerar que somos diferentes e podemos desenvolver resultados igualmente diversos, incluindo perdas da mobilidade, da memória e/ou do equilíbrio. Se o indivíduo já nasce com limitações ou adquire deficiências por acidentes, a condição exigirá ainda mais atenção, prejudicando a capacidade de resiliência com o avanço da idade. Esse fato apenas reforça a necessidade de maior reflexão sobre os modos de morar nas diferentes fases da vida, já que a dependência é indesejada, mas o futuro será confortável e seguro, apesar de incontrolável, se for planejado para as condições físicas, emocionais e sociais possíveis. Mesmo sem deficiências, a simples condição de um corpo velho não é motivo para desistir de viver intensamente, atendendo desejos e necessidades pessoais, e construindo perspectivas para as melhores condições de bem-estar ao longo da vida.

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