Que estratégias podem ser adotadas quando a solidão sugere fraqueza e inutilidade?

Frequentemente encontramos idosos sentados sozinhos em praças públicas, observando o movimento e demonstrando estarem com muito tempo disponível. Atividades em duplas, tais como os jogos de tabuleiro, são opções nesses casos, geralmente encontradas em ambientes públicos que agregam várias mesas, sugerindo objetivos de distração que preenchem o tempo de modo significativo. Competir, mesmo sem premiações, já traz em si um motivo para criar vínculos produtivos, incentivando a permanência e o retorno a esses lugares.

Em Geri’s Game, curta-metragem da Pixar (EUA, 1997), o protagonista é um idoso solitário que cria um jeito inusitado de preencher o tempo (https://vimeo.com/168651722). Inicia um jogo de xadrez, no qual seu oponente é ele mesmo, sem os óculos originais e mais extrovertido, acirrando a disputa a cada jogada e provocando reações de ansiedade, tornando o momento mais tenso na iminência da derrota. Ao fingir um mal súbito distrai o “outro”, aproveitando para enganá-lo ao inverter o tabuleiro e ganhar a partida. O prazer que demonstra ao vencer define que alcançou seu objetivo, mesmo sem o compartilhamento de tempo e espaço com outra pessoa.

Os dois personagens representariam o ego e o alter ego de Geri? Ou seria um simples autoengano sem grandes consequências, em busca de um momento de felicidade? Criar estratégias na solidão envolve trazer para perto de si histórias com personagens reais ou não, desde que vividas com prazer. Para os que veem como um desvario, vale um alerta: quem nunca conversou consigo mesmo diante de um espelho? Há os que sentem solidão entre muitas pessoas, pois falta sentir-se pertencente àquele grupo ou lugar.

Quando um idoso muda de sua residência original para outra, coletiva e especializada, vive uma transição delicada que envolve deixar para trás muitos dos seus objetos e passar a conviver com pessoas que ainda não conhece o suficiente para chamar de amigos. Isso ainda se agrava quando muitos desses conviventes apresentam algum declínio cognitivo, o que sugere um futuro indesejado e angustiante. Buscar estratégias que amenizem esse impacto pode parecer uma fuga da realidade, mas deve ser compreendido como um meio de agir para pertencer, de algum modo, ao ambiente que escolheu ou onde foi colocado. Isso explica a preferência por alguns lugares em moradias institucionais, desde o próprio dormitório até ambientes que compõem as áreas abertas, passando por espaços ecumênicos e salas de TV. Nessas, muitas vezes, a presença diante da tela não significa estar interessado na programação, mas sim buscar a companhia de outros moradores que, tal como ele, permanecem quietos, configurando um grupo que pertence a um lugar. Cabe ao gestor e sua equipe estarem atentos para esses momentos, evitando serem tragados pela rotina que despersonaliza os indivíduos, já que a ameaça da solidão pode se tornar uma oportunidade na criação de vínculos ao estabelecer objetivos mais construtivos.

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