Se a longevidade aumenta e a natalidade diminui, como acomodar dignamente o crescente número de idosos?

É fenômeno conhecido que o crescente número de idosos têm demandado decisões relacionadas ao cuidado desses indivíduos, preferencialmente oferecendo condições para que permaneçam com as famílias o máximo possível, desde que se mantenha o conforto e a dignidade. Porém, em muitas situações a opção por moradias institucionais mostra-se mais adequada e, embora seja preciso rever alternativas para diferentes perfis de idosos, ainda há poucas vagas disponíveis mesmo com a crescente oferta de novos serviços. De um modo geral, ainda predominam os antigos asilos assistencialistas, sendo que os residenciais que oferecem mais tecnologia são destinados a indivíduos que podem pagar por alguma sofisticação nos serviços.

Em “As Intermitências da Morte” (Cia. das Letras, 2006), José Saramago elabora uma história onde discorre sobre as consequências funestas de não morrer em um país inteiro, a partir de 1º de janeiro de determinado ano. A princípio, o espanto e a alegria de perceberem-se imortais, além da permanência de entes queridos já condenados e que se mantêm próximos de um fim que nunca chegará. Porém, com o tempo, passam a perceber os efeitos negativos em todas as áreas administradas pelo primeiro ministro, em nome do rei. Entre outras, a suspensão dos serviços funerários, alternativamente utilizados apenas para animais de estimação, que continuavam morrendo. Falta de espaço nos hospitais, pois as pessoas continuariam adoecendo e sofrendo acidentes, mas não morreriam. Igualmente haveria problemas em acomodar idosos, pois continuariam envelhecendo, mas também não morreriam.

“Os lares para a terceira e quarta idades, essas benfazejas instituições criadas em atenção à tranquilidade das famílias que não têm tempo nem paciência para limpar os ranhos, atender aos esfíncteres fatigados e levantar-se de noite para chegar a arrastadeira, também não tardaram, tal como já o haviam feito os hospitais e as agências funerárias, a vir bater com a cabeça no muro das lamentações.”

A perspectiva de acumularem-se pessoas imortais trouxe o pânico àqueles que perceberam as terríveis consequências da falta de espaço para abriga-los. Passaram a avaliar como suportar o serviço, pois haveria a necessidade de pessoas jovens para atende-los, pessoas que também envelheceriam e engrossariam a população a ser cuidada. Um ciclo vicioso, determinando que “… não só haverá cada vez mais idosos internados nos lares do feliz ocaso, como também será necessária cada vez mais gente para tomar conta deles…”

Ressalvado o exagero de não haver mais mortes, ainda assim vale considerar que o aumento crescente de idosos e o menor número de jovens traz consigo a necessária busca de soluções que envolvem tecnologia. A melhoria de processos utilizando dispositivos mecânicos e eletrônicos já é uma necessidade premente, portanto tende a ser ainda mais importante assumir posturas receptivas a mudanças. Ser modular, sem jamais prescindir do toque e do olhar.

2 comments on “Se a longevidade aumenta e a natalidade diminui, como acomodar dignamente o crescente número de idosos?

  1. Nosso problema começa pela cultura, projetamos e construímos espaços para um tipo de pessoa: saudável, 30 anos, estatura média – 1,70 a 1,80 – físico magro. O que precisamos URGENTE, e essa é minha causa, conscientizar TODA população que somos diferentes, e que essas diferenças não podem infringir a lei federal de “ir e vir”, todos os espaços NECESSARIAMENTE – OBRIGATORIAMENTE, devem ser projetados e principalmente executados levando em consideração atender a todas as necessidades físicas que os indivíduos apresentam. Somente desta maneira teremos um país sem discriminação e que respeita a sua população.

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    • Vc tem razão e pontuo a heterogeneidade da velhice: somos diferentes em características antropométricas mas também envelhecemos de modo diverso, a depender de como levamos a juventude e a meia idade em atividades físicas e intelectuais, assim como alimentação e outros cuidados pessoais. Por isso intitulei como SER MODULAR, pois cada pessoa é diferente e vive experiências diferentes, é preciso estar consciente disso e aceitar o avanço da idade com todas suas consequências. Obrigada por participar!

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