Qual é o momento certo para a família reorganizar a moradia de um idoso que já não pode mais ficar só?

O aumento da longevidade e a escassez de familiares disponíveis para cuidar de um parente idoso tem apresentado mais casos de indivíduos que moram sós. Enquanto houver preservação das capacidades físicas e cognitivas, ter objetivos diários é um excelente modo de manter-se ativo, mesmo com ajuda eventual. Porém, o aumento da fragilidade pode ser imperceptível se não houver convivência, assim como haverá resistência para mudanças quando a constatação de que há riscos iminentes traz o assunto para discussão.

No filme “Antes que Eu me Esqueça” (Brasil, 2018), encontramos o personagem principal com essa expectativa, pois apresenta lapsos de memória recorrentes, mas mesmo assim, não admite conversar sobre qualquer mudança que inclua cuidado profissional ou supervisão familiar. O crítico Kadu Silva publicou em https://ccine10.com.br/antes-que-eu-me-esqueca-critica/:

“No longa conhecemos Polidoro (José de Abreu), um homem de 80 anos, juiz aposentado e que vive só, até que os efeitos da doença de Alzheimer começam a ser notados pela sua filha Bia (Letícia Isnard), ela então resolve ir na justiça interditar o pai…”

O objetivo dela é preservar o pai do risco de incidentes indesejáveis, pois ele esquece compromissos, entre outros acontecimentos. Seu irmão Paulo (Danton Mello), que se mantem distante de seu pai devido a desentendimentos do passado, comparece na audiência a seu pedido e confirma que o pai está muito bem, o que leva o juiz a obrigá-lo a conviver com o pai durante um tempo, de modo a definir se de fato ele está em condições de continuar morando só. A partir dali, Polidoro decide garantir utilidade para o que resta da sua vida e compra uma boate de strip tease, para a qual transfere o piano que o filho, músico profissional, necessita para treinar suas habilidades para um concurso. A convivência entre ambos os aproxima e, de fato, eventos de desorientação confirmam que Bia tinha razão. Ao cuidar do pai, Paulo encontra um diário, onde há registros de confusão por dois anos, fato que o espanta ainda mais. Ele tenta preservar o pai da exposição diante do juiz, mas ele próprio assume a doença ao afirmar que sofria pela “… sensação horrível de perceber que parte da lucidez está lhe abandonando…”, determinando a decisão de ser interditado.

“Com um humor negro e uma delicadeza tocante o roteiro da estreante Luísa Parnes consegue com uma rara precisão mostrar os efeitos do tempo na vida de um homem. Ela mostra a sexualidade na terceira idade, a relação com a família, a solidão, a ânsia por fazer tudo logo…”

O momento certo para a família reorganizar a moradia de um idoso que já não pode mais ficar só dependerá sempre da percepção das necessidades pela convivência, e certamente a solução deverá ser tomada em consenso, mantendo a dignidade e respeitando a fragilidade emocional que a perda de capacidades pode impor na velhice. Seja qual for a opção, é preciso diminuir o sofrimento pois a vida não é um jogo, e o carinho da família é o melhor remédio.

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