O que pode justificar que alguns idosos institucionalizados pareçam mal-humorados e difíceis para conviver?

Ao visitar moradias institucionais, frequentemente podem ser observadas situações de isolamento, aparentemente devidas ao desejo de não interagir ou à simples escolha por observar as cenas do cotidiano sem participação ativa. Não raro há reações nem sempre simpáticas quando instados a participar, demonstrando um comportamento que chega a contagiar alguns mais desanimados.

Em Tentativas de Fazer Algo da Vida (Ed. Planeta, 2016), Hendrik Groen é um idoso institucionalizado com 83 anos e ¼, que registra o dia a dia da sua vivência no contexto institucional, destacando impressões sobre esses comportamentos.

Bonito nome, “sala de estar”, mas vende gato por lebre. “Salão RRR” seria melhor. Os três erres significando: resmungar, reclamar e ridicularizar. Tarefas diárias, para alguns.

Ele descreve a dificuldade de fazer amigos no residencial, especialmente porque há essa tendência de serem observados para apenas criticar, sem o desenvolvimento de encontros produtivos.

Velhos resmungam e gemem o tempo todo. Às vezes pelo esforço ou pela dor, mas com frequência por hábito. (…) Quando comecei a prestar atenção, foi me irritando cada vez mais.

Sendo ele um idoso com a capacidade cognitiva preservada, procura aproximar-se de pessoas com objetivos semelhantes, grupo de amigos que resolve criar um “clube” de atividades onde, a cada mês, um deles determina um programa para participarem, estabelecendo duas grandes motivações: a de criar a atividade considerando o prazer dos amigos e vivenciá-la com eles, sendo valorizado pelo empenho na empreitada. Sente-se motivado:

Minha mulher é maníaco-depressiva há quarenta anos. (…) Agora ela está internada definitivamente. (…) Vou visita-la mais ou menos uma vez a cada seis meses. Ela mal me reconhece, mas segura minha mão e a acaricia. (…) Nos últimos dois anos, o vazio aos poucos se tornou insuportável, mas veja… de repente tenho Eefje, Graeme, Grietje, Edward, Antoine e Ria. É motivo suficiente para, por enquanto, ainda não morrer.

Porém, aos poucos cada um deles apresenta perdas que exigem maior cuidado, o que pode ser amenizado quando parte é assumido por um amigo. Um foi amputado, outra está demenciando e a terceira sofreu um AVC.

Minhas significativas tarefas como cuidador se tornaram uma âncora em meu dia a dia. Dão-me tranquilidade e uma sensação de comprometimento. Meus três pacientes, Evert, Grietje e Eefje, estão satisfeitos.

Ambiências facilitadoras dependem de ambientes enriquecidos, mas também, de qualidade no encontro dos sujeitos. Se o compartilhamento da moradia acontece entre amigos, o impacto da mudança será muito mais agradável, certamente tornando a experiência mais suportável e com tendência a mais sorrisos e menos gemidos ou resmungos.

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