Como moradores idosos utilizam praças que interligam quadras com casas e edifícios de apartamentos?

Frequentemente observamos praças ajardinadas, com equipamentos variados em mobiliário urbano e outros para atividade física, mas nem sempre podemos flagrar muitos usuários, especialmente idosos, que poderiam estabelecer encontros positivos e aproveitar o microclima que se estabelece entre árvores e outros elementos naturais. O que falta para que efetivamente utilizem esses espaços? Mesmo em bairros com menor fluxo de veículos, a necessidade de atravessar ruas pode inibir o desejo de usufruir desses lugares, trazendo percepções negativas quanto à segurança, a exposição aos ruídos e a estranha sensação de estar ilhado e com dificuldades para retornar ao aconchego do lar.

O modelo de espaço urbano que ainda prevalece no Brasil é o que privilegia o veículo automotor, antes com carros, motos e caminhões e hoje ainda com os patinetes, proibidos de andarem pelas calçadas, mas ainda ameaçados por espaços exíguos e travessias disputadas. Nesse contexto, como ficam os pedestres, especialmente os que já apresentam baixa mobilidade ou limitações de percepção sensorial? Parece haver um conflito entre a intenção de oferecer espaços aprazíveis junto a pequenos recortes urbanos arborizados e preparados para o lazer e a dinâmica de cidades que exigem velocidade, em busca do aproveitamento de um tempo que se esvai no trânsito caótico.

Em São Paulo, ir ao Parque do Ibirapuera é uma verdadeira gincana, vencendo obstáculos tais como travessias movimentadas, um intenso fluxo de veículos emitindo poluentes e a longa passarela Cicillo Matarazzo, ao final das contas o local mais seguro para quem deseja chegar e sair a pé desse maravilhoso lugar de lazer e contemplação. Um belo exercício físico com a recompensa de uma paisagem exuberante e da sensação de estar longe do caos urbano. Porém, para os idosos que já não encontram tanta energia, somente o acesso por carro a um dos diversos estacionamentos pode garantir esse prazer.

Em Lisboa, os conjuntos habitacionais, criados a partir do período salazarista e que pretendiam promover a habitação para todos, deixaram marcas expressivas na malha urbana, em especial quanto às praças que integram os edifícios em torno de si, havendo situações em que a pista para os veículos é simplesmente delimitada pelo mobiliário urbano, com bancos, placas e lixeiras que definem onde o pedestre tem prioridade. Há até equipamentos infantis cercados, mas mantendo a possibilidade de o carro circular e exigindo do motorista maior atenção. Nas praças há equipamentos comunitários, geralmente escolas, onde as crianças e os pais são integrados nos momentos de entrada e saída, com claro senso de comunidade e de bem-estar.

O poder de conexão que estes espaços oferecem é visível, pois pessoas de todas as idades trazem seus cães para passear e mantêm o espírito de vizinhança, que aumenta a segurança de todos. Portugal é um país de muitos idosos e viver a cidade é um modo de pertencer: esse pode ser um grande indício para o combate à solidão que aflige muitos que se isolam entre tantos.

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