O quanto a memória de uma casa com lembranças significativas acompanha um idoso demenciado?

A maioria das pessoas mantém lembranças positivas das residências ocupadas ao longo da vida, incluindo as que convive com pais, irmãos e avós. Em alguns casos é o mesmo lugar, com objetos que permanecem na memória, tais como móveis e outros complementos. Em ambientes considerados mais significativos geralmente são agregados elementos que tragam conforto, permanecendo com prazer por usar o espaço com a produtividade desejada.

Em The Father (Inglaterra, 2020), com excelente atuação de Anthony Hopkins e Olivia Colman nos papéis de pai demenciado e filha responsável pelo cuidado, uma série de encontros acontecem entre a sala, a cozinha e o dormitório do seu apartamento original (https://www.adorocinema.com/filmes/filme-273981/). 

“Meu Pai” fala sobre temas como velhice, paternidade e deveres familiares de uma forma tão sutil quanto firme, pois apresenta os momentos de cumplicidade e “presença” de Anthony em contraste com as passagens em que o protagonista se sente perdido e muito só. 

Apesar de apresentar momentos em que o protagonista se sente confuso com as mudanças no lugar e nas pessoas com quem convive, fica muito claro que o apartamento em que viveu grande parte da sua vida se mantém presente na memória. As transformações sutis sugerem que há outro tempo apesar do mesmo espaço, assim como os personagens se alternam em diferentes papéis que culminam na compreensão de que, no final da história, a dificuldade de entender a mudança estava no próprio idoso, em função da demência.

A percepção de que as coisas estão mudando mais rápido do que se parece é real e vai ganhando cada vez mais espaço quando observamos as mudanças de cores no apartamento em que Anthony mora, assim como as breves trocas de personagens e de objetos no local.

É muito forte o vínculo que se formou entre o morador e sua residência de longo tempo, incluindo as pessoas com quem convivia. Ficam estabelecidos papéis que, nesse caso, são trocados em função do necessário cuidado e assistência que o protagonista exige, mesmo contra a sua vontade. Igualmente é evidente o desejo de manter-se pertencente àquele lugar, onde comanda as atividades que lá acontecem, mesmo considerando o carinho e a atenção dedicados pela filha que, em determinado momento decide seguir seu destino, não sem antes providenciar a solução mais segura para as dificuldades do pai.

Idosos que moram sós normalmente necessitam que a composição de móveis e objetos se mantenha pelo maior tempo possível, como garantia de que a autonomia e o gerenciamento do território pessoal continuem sob seu controle. É um modo de sentir que pertencem àquele lugar e que são capazes de manter a independência que detinham ao longo da vida. Se a desorientação e o avanço de estados demenciais já prejudicam a permanência, a moradia institucional é uma solução adequada e segura, mas sempre considerando que mudanças físicas nem sempre serão claramente percebidas, o que pode gerar algum sofrimento e exige, mais ainda, atenção e carinho com o idoso.

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