Quais as condições para que pessoas adultas com necessidades especiais possam desfrutar de uma moradia independente e digna?

Moradia independente e digna para pessoas com necessidades especiais é uma demanda já percebida em muitos países ao redor do mundo e com exemplos interessantes, que podem inspirar iniciativas inovadoras no Brasil, ainda carente de alternativas que atendam o desejo de independência. As residências assistidas portuguesas, que oferecem apoio a idosos quando houver solicitação e mantêm uma supervisão constante junto aos moradores, são casos de estudo que merecem atenção. Podem significar um modo de morar na transição de um imóvel qualquer para um sistema com cuidados mais intensivos, se for o caso, mas certamente oferecem a possibilidade de as pessoas viverem mais tempo como protagonistas no seu espaço de vida.

Para pessoas com deficiência, o Brasil oferece residências inclusivas, certamente um passo importante para o acolhimento de indivíduos que necessitam de apoio e cuidado. Porém, os recebem de acordo com a disponibilidade de vaga e sem alternativas mais especializadas, considerando a vulnerabilidade social de muitos que buscam por moradia, independentemente da idade. Mas já foi constatada a longevidade crescente dessa população e, portanto, podem aumentar as necessidades especiais de muitas dessas pessoas com deficiência.

Para algumas etiologias da deficiência intelectual, o processo de declínio de funcionalidades é acelerado em torno dos 50 anos, o que agrava ainda mais a situação de quem poderia usufruir da independência, mesmo que supervisionada. Assim, a transição da família para uma moradia independente e dela para outra com cuidados mais intensivos, cria diferentes momentos críticos, quando a atenção de familiares e dos gestores é ainda mais necessária.

No filme Lá Vamos Nós (Israel, 2020), as crises decorrentes desses momentos ficam claramente evidentes (https://www.theguardian.com/film/2021/jul/20/here-we-are-review-autism-drama-nir-bergman-israel). Conta a história de um pai que abdicou de uma carreira de sucesso para cuidar permanentemente do filho autista durante mais de 20 anos e sente que ambos não estão prontos para a mudança dele para um residencial apropriado.

Ele pode falar, mas é muito apegado às suas rotinas, resistente a comer muito além das estrelas do macarrão e obcecado em assistir aos filmes de Charlie Chaplin em seu DVD player portátil; ele deve ter seu pai por perto para ajudá-lo a navegar pelo mundo o tempo todo…

A interdependência que foi criada ao longo do tempo leva ao sofrimento pela perspectiva da separação, embora fique provado, no final, que seja a melhor solução para que o filho encontre outros objetivos para sua satisfação. A mudança de um idoso regular para uma moradia institucional pode ser vista sob a mesma ótica e precisa ser considerada, em especial quando houver a tendência a soluções que, em nome de oferecer proteção, resultam em isolamento e solidão, tão nocivos à saúde mental de qualquer pessoa. Moradia independente e digna precisa ser oferecida àqueles que envelhecem bem.

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