Como ficaram as relações intergeracionais entre vizinhos que se conheceram no auge da pandemia?

A surpresa com a pandemia pela Covid-19, alastrada ao ocidente em março de 2020, fez com que a imensa maioria das pessoas permanecesse em casa e buscasse estratégias para a manutenção das rotinas. Os condomínios estimularam que moradores mais novos ajudassem os mais velhos, o que resultou em solidariedade entre vizinhos e em novos relacionamentos em pleno distanciamento social. Houve histórias de artistas que apresentaram seus trabalhos em sacadas para a distração dos vizinhos, assim como ações de escuta para idosos solitários que, mais do que alimentar o corpo, desejavam profundamente o alimento para a alma.

Na peça teatral “A Lista”, protagonizada magistralmente pela atriz Lilia Cabral e com a parceria da sua talentosa filha Giulia Bertolli, duas vizinhas experimentam situações forçadas pela pandemia. A história é assim descrita (https://www.sympla.com.br/a-lista—presencial__1427211):

Na peça, Lilia interpreta Laurita, uma aposentada trancada no seu apartamento em Copacabana, evitando se contaminar com o vírus que assolou o mundo da noite para o dia. Munida da lista de compras do supermercado de Laurita, é a jovem Amanda, vivida por Giulia Bertolli, quem abastece a casa da vizinha. O encontro de Laurita e Amanda detona um turbilhão de sentimentos, lembranças e descobertas que marcarão suas vidas para sempre.   

Laurita é solitária e tornou-se impertinente ao planejar artifícios para justificar sua vida vazia e saudosa do tempo em que era mais ativa. Descreve-se como alguém doente e com familiares que a deixaram sozinha, chegando a criticar a ajuda da vizinha, que ameaça desistir de ajuda-la. É intolerante com outros vizinhos e com o síndico, sugerindo reformas que outros moradores, incluindo Amanda, não teriam como arcar por terem perdido seus empregos e estarem com dificuldades de sobrevivência. Após a representação de um reencontro com a única filha, que tenta a convivência sem sucesso, Laurita e Amanda se reencontram no futuro, quando afirmam já terem recebido diversas doses de vacina. Nesse momento, percebem que o tempo trouxera novas convivências, em especial por terem superado as dificuldades anteriores, mas que a amizade que surgira da situação aterrorizante da pandemia continuava viva, tendo sido importante para a própria sobrevivência de cada uma das personagens. 

As relações intergeracionais entre vizinhos que se conheceram no auge da pandemia podem ter ficado menos constantes e ainda menos interessadas, mas percebe-se que a experiência mudou a ideia de comunidade que se tinha antes. Talvez a pandemia tenha demonstrado que vizinhos não são somente pessoas que vivem próximas, mas que têm interesses comuns, em especial quando se consideram os espaços de convivência, mesmo transitória, como portarias e elevadores. Gentileza e sorrisos podem mudar o dia de muitas pessoas, concentradas em resolver problemas pessoais, ou outras que, simplesmente, vivem sós. Sentir-se parte alivia, em especial quando há temor pelo desconhecido.

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