The Villages: Diferença Cultural ou Baixa Oferta?

Acabo de voltar de mais um passeio pelo The Villages, a maior comunidade senior do mundo, com algumas reflexões extras, que as minhas outras 20 e tantas visitas anteriores não havia percebido.

Um dos pontos mais interessantes é ver que é a comunidade que mais cresce nos Estados Unidos, com cerca de 200 novas casas todos os meses. O The Villages fica situado a cerca de uma hora à noroeste de Orlando, no condado de Lake Sumter, na Flórida. São mais de 3 mil atividades para serem escolhidas através de um app. Atividades esportivas, sociais, culturais, religiosas, individuais ou coletivas.

Mais de 50 campos de golfe, aliás, o carrinho de golfe é o transporte oficial no The Villages. A concessionária local vende cerca de 350 unidades / mês, entre novos e usados, e também customizam os carrinhos de acordo com a vontade do freguês (carrinho da Barbie, Ferrari, Calhambeque, enfim, tem de tudo!). O esporte “da moda” por lá agora é o Pickleball, uma espécie de tênis com a quadra menor e a bolinha mais leve.

Impressiona como a vida pode ser super ativa e independente na longevidade. Sim, em todos os sentidos. Todos os dias, por exemplo, às 17h, nos coretos das praças dos 4 bairros temáticos, tem uma banda ao vivo tocando as mais variadas músicas de acordo com o tema do bairro (música country, latina, pop, etc.). Ao redor, bares, restaurantes, lojas, cafeterias, sorveterias, serviços bancários, enfim, uma cidade inteira onde para comprar uma casa ao menos um morador deve ter mais de 55 anos. Crianças não são permitidas, ou melhor, podem sim visitar os avós, porém, apenas 30 dias no ano.

Os valores das residências cabem perfeitamente no bolso do americano “médio”. Por cerca de US$ 250 mil já se encontram casas ou lofts com 70 a 80 m2. O valor das taxas de coleta de lixo, água, esgoto, conservação dos espaços públicos, segurança, gás e eletricidade variam em torno de US$ 800 por mês para esse tamanho de residência. Ou seja, valores bem razoáveis para quem quer sair dos 30 graus negativos de Minnesota ou Chicago e ter um lugar na ensolarada Florida Central, longe de furacões.

O modelo principal é o Independent Living, mas o complexo de mais de 71 mil casas e 145 mil moradores conta também com os modelos Assistenciais e um hospital de 307 leitos, nos seus mais de 100 km2 de área total.

O The Villages é um fenômeno dificilmente replicável mesmo nos Estados Unidos, mas certamente é um caso a ser profundamente estudado em termos do seu sucesso como empreendimento e como estilo de vida. Funcionaria aqui no Brasil? Acho difícil, pois a nossa estrutura familiar é bem diferente da norte-americana onde é comum os filhos saírem de casa para cursar a universidade em outra cidade e quebram-se muitos dos vínculos, voltando apenas em algumas poucas datas comemorativas como Thanks Giving, Natal e aniversários. Fora isso, não vemos também movimentos migratórios internos com tanta facilidade como lá.

Quando observamos a grande quantidade de modelos de negócios (Aging in Place, Co-housing, Co-living, Assisted Living Facilities, Skilled Nursing Facilities, Memory Care e suas variáveis, apenas para citar os principais), percebemos que há na verdade um certo desejo em morar em um local que ofereça mais independência e autonomia, com pares de mesmo interesse e com histórias de vida semelhantes. Ou seja, parte a ser mais aspiracional e até certo ponto desafiador: “Será que terei recursos para bancar um Senior Living?” Para o americano médio como citei anteriormente sim, se a pessoa possuir casa própria é bem possível que possua recursos suficientes para migrar para algum modelo de moradia assistida.

No Brasil ainda faltam modelos de negócios e quantidade de oferta para que se estabeleça uma quebra de padrão. Atualmente ainda há um pensamento que cerceia a liberdade da pessoa idosa levando-a para morar na casa de algum filho. Sequestra-se dessa forma toda a possibilidade de manutenção das habilidades sociais, físicas e cognitivas, ou ainda a possibilidade de desenvolvimento de novas habilidades, uma vez que a família possui seus afazeres e rotinas, deixando na maioria das vezes a pessoa idosa na companhia do sofá e televisão, acelerando os processos de depressão e o sentimento de inutilidade.

Moradias que acolham melhor as pessoas idosas, como se diz no mercado, é um “oceano azul”, ou melhor, “prateado”, repleto de oportunidades em nosso país. Casas ou apartamentos que ofereçam o pertencimento a uma comunidade, conseguem melhorar a autonomia e oferecer uma longevidade mais ativa, alegradora e digna

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