Tenho estudado – e aprendido muito com colegas que demonstram conhecimento e competência – sobre modos de morar na velhice. Já falamos em morar na própria residência até quando possível, desde que haja o suporte adequado que ofereça apoio para pertencer a uma comunidade servida por serviços essenciais para o dia a dia. Se a gerontologia, como ciência que estuda sobre o envelhecimento ao longo da vida, já aponta a necessária qualidade de vida com dignidade que todos merecemos, a gerontologia ambiental pontua a importância dos impactos do ambiente construído, quer seja pelas condições de vivências dentro e fora dos ambientes privativos ou pelas subjetividades que emanam dos encontros entre conviventes nesses espaços. Assim, falamos em outros modos alternativos que hoje temos à nossa disposição no Brasil.
Estão surgindo soluções de moradia para pessoas sós ou para casais, que oferecem estruturas que atendem diversos aspectos referentes a desejos e necessidades dos moradores, muitas delas para públicos que alcançam condições financeiras para atender aos preços desses serviços. O sênior living está demonstrando que atende uma demanda crescente de interessados em garantir uma moradia que possa aproximar conforto, atendimento a necessidades básicas e espaços de lazer, além de poder ampliar a rede social que se forma nos espaços de convivência ativa oferecidos de acordo com as demandas
Para pessoas idosas em condições socioeconômicas mais restritas e que se encontram em vulnerabilidade social por não poderem contar com família há algumas políticas públicas que já cumprem um papel importante para essa população, mesmo ainda sendo insuficiente para muitos que aguardam vagas em cidades brasileiras que ainda não contam com esses empreendimentos. Podemos citar os programas Vida Longa em São Paulo, o Cidade Madura na Paraíba e o Viver Mais Paraná, com propostas bastante semelhantes e que têm sido ampliados paulatinamente de acordo com as parcerias instituídas com as prefeituras municipais que se apresentam em condições para administrar conjuntos residenciais desses programas. Ainda há o aluguel social fornecido pelos órgãos municipais de São Paulo, citando-se Palacete dos Artistas e Vila dos Idosos, ambos ainda sem novas implementações em outras áreas da cidade.
Ainda para pessoas vulneráveis e em situação de rua, encontramos também no município de São Paulo os Centros de Acolhida Especiais para Pessoas Idosas – CAEI, nos quais vivem pessoas que, de acordo com o princípio definido para essa política, deveriam permanecer até 18 meses até ser reestabelecido o vínculo com o seu meio, o que nem sempre acontece e, então, permanecem lá por mais tempo pela falta de alternativa até que necessite de cuidados mais intensivos. Esses cuidados são prestados por Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas – ILPI, havendo algumas públicas e outras filantrópicas, essas mantendo-se por doações e pela retenção de 70% do benefício de proteção continuada – BPC, valor estabelecido pelo Estatuto da Pessoa Idosa, instrumento legal que garante essa condição.
Mas há as ILPI privadas, que podem oferecer diferentes condições de atendimento em casos de maior dependência, sejam eles por perdas físicas ou cognitivas e têm equipes preparadas para esse trabalho com pessoal especializado e encaminhamento a tratamentos adequados em soluções centradas na pessoa idosa. Encontram-se empreendimentos de luxuosos a mais espartanos, mas todo o funcionamento segue de acordo com o acompanhamento da Agência de Vigilância Sanitária, para que haja efetiva qualidade independente da categoria em que se enquadrem. E aí chegamos ao problema que tem abalado a opinião pública nas últimas semanas, vista a situação imposta a alguns desses empreendimentos no bairro Altos da Lapa, em São Paulo.
Para que funcionem há todo um processo administrativo junto à Prefeitura Municipal para que se instalem em bairros da cidade, o que foi aprovado para todos esses que estão sendo combatidos por alguns indivíduos intolerantes na vizinhança. Se houve um erro de procedimento, visto ser uma residência coletiva e não unifamiliar como estabelecido, é preciso reconhecimento e que se abram as exceções, já que é uma questão administrativa e não um problema gerado pelos residentes, que têm sido incomodados com sons altos, filmagens grosseiras e afirmações que não condizem com o que se espera de seres humanos civilizados. Por outro lado, essas instituições geralmente são muito tranquilas e a equipe que atende aos residentes presta um serviço qualificado para contornar situações que poderiam ser incômodas para pessoas próximas, de dentro do próprio residencial, mas que não se estendem a vizinhos, mesmo próximos.
Se os argumentos são de que “os imóveis se desvalorizam” e “saem carros funerários”, talvez essas pessoas tão incomodadas na vizinhança não perceberam que estão no mesmo processo de envelhecimento e que igualmente vão morrer um dia, tal como seus vizinhos. A ideia de expulsão proposta por esse grupo, que deve ter meia dúzia de pessoas desocupadas, deveria no mínimo ser negociada com os gestores públicos municipais, que erraram e agora estão “dando corda” para pedidos descabidos, para não dizer desumanos.
O município de São Paulo, através de muitas instituições importantes e da opinião pública, tem se manifestado de modo surpreso com tamanha falta de consideração por pessoas que já prestaram seus serviços por muito tempo e hoje necessitam de cuidado. Mais que isso, outras cidades em muitos estados do Brasil têm demonstrado a mesma indignação, o que prova que essa minoria que deveria aproveitar melhor seu tempo de vida ativa, incluindo a busca pelo bem-estar do próximo, decidiu criar polêmica, infernizar residentes idosos e passar o dia buscando motivos para a expulsão que tanto apregoam. Há convivências impossíveis, em especial para pessoas intolerantes que, ao fim e ao cabo, provavelmente terão velhices tristes e amargas, porque não aceitarão sua própria situação física e cognitiva. Poderiam conviver mais de perto com essas pessoas idosas e aprender com elas, quem sabe ficariam mais civilizadas?


