O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa é celebrado em 15 de junho. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011, com o propósito de sensibilizar a sociedade sobre o enfrentamento a esse tipo de vulnerabilidade. Alinhado a essa temática, o vídeo abaixo, da campanha de 2024, publicado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania serve como ponto de partida para a reflexão proposta neste artigo.
Recentemente, uma notícia repercutiu e gerou grande impacto: a mobilização de moradores do bairro da Lapa, na Zona Oeste de São Paulo, contra a existência de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) na região, sob a justificativa de que a lei de zoneamento local não contemplaria esse tipo de serviço.
Longe de ser apenas uma questão técnica ou legal, esse panorama nos convida a uma reflexão profunda sobre como estamos organizando nossas cidades para acolher todas as fases da vida.
Essa situação me fez lembrar do filme brasileiro “O Último Azul”, um drama de ficção científica dirigido por Gabriel Mascaro. A obra retrata um cenário distópico onde o governo decreta que todos os idosos devem ser transferidos para colônias habitacionais isoladas, usando o pretexto de garantir uma velhice “digna”.
No filme mostra-se que essa suposta dignidade, na verdade, serve para afastar as pessoas idosas do convívio social. Ver a realidade imitar a arte de forma tão literal acende em nós um alerta.
A participação do cuidado é de todos
Infelizmente, as ILPIs ainda são serviços pouco compreendidos e valorizados em nossa sociedade. Para muitas famílias, a transição para um residencial ainda é cercada de tabus e sentimentos de culpa, sendo vista como a “última opção”. Até entre as pessoas idosas, o pensamento comum costuma ser: “Ainda não é a hora; quando eu ficar velho eu vou para lá”.
Contudo, diante do rápido envelhecimento da nossa população, precisamos ressignificar esse olhar. Uma ILPI bem estruturada não representa um distanciamento, mas sim um grande facilitador no ecossistema do cuidado .
Ela compartilha a assistência com a família — o que pode fortalecer e pacificar os laços afetivos —, além de oferecer um espaço de convivência, socialização e estímulo, evitando o isolamento que muitas vezes acontece na rotina de quem mora sozinho.
O que diz a legislação? Segundo a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC, 2021), as ILPIs são caracterizadas como: “Instituições governamentais ou não governamentais, de caráter residencial, destinada a domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em condição de liberdade e dignidade e cidadania”. (Brasil, 2021, p.02)
Pesquisas mostram que cuidar de um idoso que necessita de suporte contínuo pode levar à sobrecarga extrema do cuidador (Santos et al., 2019). Nas ILPIs, esse atendimento deve ser especializado e conduzido por uma equipe de profissionais capazes de antecipar as necessidades do idoso e reconhecer com propriedade as demandas de intervenções emergenciais.
É importante ressaltar que as interdições e fechamentos desses locais só devem acontecer quando houver riscos reais ou negligência, e nunca por preconceito ou barreiras urbanísticas.
Entendendo a Rede de Apoio Atenção à Pessoa Idosa
Para entender o papel da ILPI, vale uma comparação: ela é uma moradia coletiva (com ou sem fins lucrativos) que integra os serviços de alta complexidade do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Ela tem o mesmo peso que um hospital tem para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Assim como os hospitais e clínicas são fundamentais para a nossa segurança em saúde, os residenciais coletivos cumprem um papel essencial na assistência social e na estrutura de cuidados de uma comunidade.
Quando passamos a ver esses espaços como equipamentos de acolhimento e proteção, percebemos que a proximidade deles com o tecido social do bairro é, na verdade, uma garantia de cuidado para todos os moradores e suas famílias.
Causa reflexão notar que raramente vemos vizinhos se mobilizando contra a existência de um hospital no bairro; pelo contrário, ter um hospital por perto costuma ser visto como um benefício e um diferencial de segurança. Por que, então, esse estranhamento com as ILPIs.
Autonomia e a Jornada do Envelhecer
No filme “O Último Azul”, a protagonista Tereza (interpretada por Denize Weinberg), uma mulher de 77 anos, por regulamento estabelecido pelo governo, tem sua interdição, o que limita drasticamente sua autonomia. Antes de ceder a tais imposições, Tereza decide viver seus sonhos: embarca em uma jornada pelos rios da Amazônia e se reconecta com sua própria capacidade de transformar o seu destino.
Mas, na vida real, essa busca por dignidade não pode ser um esforço puramente individual e heroico como o de Tereza. Estamos atrasados no debate coletivo.
Essa mesma urgência sobre o ato de cuidar ganhou as telas recentemente na novela “Quem Ama Cuida”, trazer essas narrativas para o grande público nos ajuda a evidenciar o tema. Precisamos de providências que não sejam apenas individuais, mas comunitárias.
A verdade é irrefutável: TODOS NÓS ESTAMOS ENVELHECENDO. Ao longo da vida, a presença da rede de apoio, seja ela formada por familiares, amigos ou profissionais especializados são fundamentais para se ter uma vida de qualidade.
Se tivermos o privilégio de viver muito, todos precisaremos de cuidados em algum momento. Aproximar-se desse tema hoje é uma oportunidade de planejarmos para nos amparar amanhã, seja aos 85, 90, 100 anos ou mais.
Não precisamos — e não devemos — carregar a complexidade do envelhecimento sozinhos. Precisamos de políticas públicas robustas de cuidado e de uma sociedade que abrace a longevidade, em vez de empurrá-la ou evitá-la. Precisamos criar, juntos, uma verdadeira comunidade de cuidado, fiscalizando e melhorando a qualidade das nossas instituições para que elas sejam vistas com o respeito que merecem. Pois no futuro, iremos precisar desses locais.
Vamos refletir juntos?
Para encerrar, convido você a fazer um exercício para o nosso processo de envelhecer:
- Quando você precisar de cuidados, onde gostaria de estar?
- Com quem gostaria de morar?
- Como teria que ser esse espaço? Quais serviços e atividades que uma ILPI deveria oferecer para que você a escolhesse, como o seu novo lar?
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento de Instituições de Longa Permanência para Idosos – ILPI. Brasília, DF: ANVISA, 2021. Disponível em: <link da página ou do Diário Oficial>. Acesso em: 1 jun. 2026.
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. [Campanha] Junho Violeta – Respeito a todas as fases da vida. YouTube, 6 jun. 2024. Disponível em: https://youtu.be/j64CTRywAO8. Acesso em: 1 jun. 2026.
O ÚLTIMO AZUL. Direção: Gabriel Mascaro. Roteiro: Tibério Azul. Elenco: Denize Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Clarissa Pinheiro [e outros]. Brasil: Desvia Filmes, Cinevinay, Viking Film, Quixote Cine e Globo Filmes, 2025. 1 filme (87 min), sonoro, colorido.
QUEM AMA CUIDA. Criação: Walcyr Carrasco, Claudia Souto. Direção artística: Amora Mautner. Rio de Janeiro: Rede Globo, 2026. Telenovela. Disponível em: https://globoplay.globo.com/quem-ama-cuida/. Acesso em: 1 jun. 2026.
SANTOS, Wallison Pereira dos et al. Sobrecarga de cuidadores idosos que cuidam de idosos dependentes. Rev Cuid, Bucaramanga, v. 10, n. 2, e607, ago. 2019. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2216-09732019000200200&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 1 jun. 2026. Epub 9 jan. 2020. https://doi.org/10.15649/cuidarte.v10i2.607.


