Crédito da imagem destaque: Proposta estudantes Nicole Navarrete Corona, Iliana Aguirre Martínez y Luis Ignacio Arias Ayala
Em dezembro de 2025 recebi um convite que me deixou muito animada: participar do Programa Verano Internacional do Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Ocidente – ITESO / Universidad Jesuita de Guadalajara, por indicação do professor Dr. Alejandro Pérez Duarte Fernández, arquiteto e coordenador do Laboratorio del Hábitat para Personas Mayores. A partir de então, planejar a participação juntamente com a professora Dra. Cláudia Villaça Diniz fez com que pensássemos sobre o local para o projeto na área de Viviendas, Comércio y Servicios, o cronograma dentro do prazo estabelecido e a metodologia para alcançar os melhores resultados.
A experiência didática
Definimos que seria um projeto de habitação de interesse social, intergeracional e para atender a população que, aos poucos, está em processo de remoção na área dos Campos Elísios, em São Paulo, em função da requalificação proposta pelo governo estadual em parceria com a Prefeitura Municipal da capital, com a previsão de construir-se o novo Centro Administrativo do Estado na região, o que levará à gentrificação naquela área. Sendo esse um processo de mudança da população original em função dos novos valores imobiliários que se estabelecem quando a zona se torna mais segura e com melhorias da infraestrutura das áreas públicas, observa-se o risco iminente da exclusão de antigos moradores, especialmente os mais velhos.
Assim, propusemos simular uma política pública habitacional para acomodar predominantemente pessoas idosas (60% das unidades), mas com oportunidades de interação com jovens estudantes também da vizinhança e que teriam o compromisso de acompanhar em atividades de lazer e cultura no próprio edifício (20% das unidades), além de propor unidades habitacionais para pessoas idosas assistidas (20% das unidades), contando com cuidadores e considerando uma transição para uma moradia institucional depois. O térreo deveria ser considerado com fachadas ativas para um rol de tipos de comércio e serviço que instigasse outros moradores da região a passarem por entradas abertas nas duas frentes do terreno em esquina, funcionando como um corta-caminho que oferece fruição ao conjunto, convidando a permanecer em um café e em áreas internas ajardinadas. Incluiu creche para crianças até 3 anos, lavanderia de autosserviço, academia e um wellness center, onde seriam encontrados serviços de psicologia, assistência social e médico geral, de modo a encaminhar casos para a UBS do bairro e oferecer acompanhamento domiciliar.

Proposta estudantes Sophia Camarena e Sheila López (acima)

Proposta estudantes Daniela Garcia, Joselyn Sotomayor e Grecia Anguiano (acima)

Proposta estudantes Nicole Navarrete Corona, Iliana Aguirre Martínez y Luis Ignacio Arias Ayala (acima)
A experiência para os estudantes mexicanos os desafiou a desenvolverem projetos em outro país, em outro hemisfério, portanto com insolação ao contrário, e a compreenderem quem seria esse morador principal, definido através da construção da persona que caracteriza a pessoa idosa que permaneceria no seu lugar original, onde se sente pertencente e envelhece em comunidade (Aging in Place). Também a legislação de uso do solo em São Paulo é muito diferente da existente em Guadalajara, o que os levou a pesquisas no site oficial da PMSP. Apesar do tempo curtíssimo, de 24 de junho a 2 de julho com aulas todos os dias, tivemos resultados muito bons e contamos com a dedicação do grupo, que ficou muito interessado pelos conteúdos que apresentei. No final, o feedback quanto às mudanças de perspectiva sobre morar na velhice também incluíram a reflexão sobre o idadismo, ao considerarem que esse é um cliente a cada dia mais presente no cenário das cidades e que envelhecer envolve atividades que estimulam o físico e a cognição, mas que também são imprescindíveis para os encontros intergeracionais que colocam a vertente social como um suporte essencial para o envelhecimento ativo. A solidão é uma epidemia mundial, de acordo com a OMS, portanto criar meios de interação social previne problemas de saúde decorrentes dessa situação.
As reflexões sobre a experiência
A experiência internacional trouxe muitas reflexões sobre alternativas de moradia para pessoas idosas no Brasil, especialmente as mais vulneráveis, quando a especulação imobiliária resultante de transformações urbanas culmina na expulsão de pessoas que vivenciam as mudanças e nem sempre conseguem permanecer, perdendo referências importantes da memória afetiva e sendo obrigadas a deixar para trás seu lugar naquele contexto urbano que conhecem em detalhes. A região dos Campos Elísios, degradada por muitos anos pela presença da Cracolândia, recebeu investimentos públicos para novos edifícios que acomodassem as famílias remanejadas, em projetos de estúdios novos que são discutíveis pelo tamanho que nem sempre abriga uma família, casal e filhos. A Favela do Moinho, recentemente desapropriada como forma de “limpar” a distribuição de drogas, desconsiderou a maioria de pessoas que subsistiam daquele grupo de moradores, com pequenos comércios e em moradias precárias que abrigavam até famílias numerosas. Receber um imóvel novo é bom, mas ele deve atender às diferentes necessidades das pessoas. E para pessoas idosas a solidão precisa ser vista como um aspecto importante nos projetos de novas moradias, especialmente quando há o propósito de manter a familiaridade com o entorno e a vizinhança.
A partir dessa experiência internacional, em função das reflexões apresentadas aos estudantes e discutidas também com outros professores brasileiros e mexicanos, fica evidente que ainda há muito o que propor para os órgãos públicos quanto a soluções habitacionais mais amplas do que a simples entrega de unidades habitacionais resolvidas em gabinetes. O protagonismo de outros envolvidos, em especial de representantes dos futuros moradores, permite o desenvolvimento de ideias que atendam com maior efetividade as diferentes realidades. Uma família de até 3 pessoas podem viver com dignidade em espaços mais reduzidos, desde que haja a possibilidade de estender as atividades até as áreas de convivência para uso coletivo, buscando racionalizar a oferta de unidades em um contexto que não crie “gaiolas”, mas ambientes agradáveis desde a entrada do condomínio, oferecendo áreas externas privadas mais interessantes. Por outro lado, famílias maiores poderiam contar com espaços mais flexíveis, inclusive pensando na convivência de pessoas com deficiências motoras ou sensoriais, garantindo dignidade a todos. Favorecer o uso do piso térreo com boxes para pequenos negócios, sejam para comércio e/ou serviço, também facilitaria a transição dos que subsistem de atividades produtivas.
Não digo que seja fácil, mas garantir um gerenciamento efetivo, presente e atento deveria ser uma obrigação dos líderes das diversas esferas governamentais e o que se vê não é isso. Há um discurso paternalista de entregar novos projetos habitacionais aos mais vulneráveis, mas muitas vezes não funcionam como dizem e se tornam apenas movimentos para aumentar o prestígio político. Criar soluções com o protagonismo de especialistas que podem selecionar boas ideias ao ouvir as reivindicações dos usuários permite que sejam adotadas as que sejam viáveis e sustentáveis. Além disso, soluções interessantes esteticamente nem sempre serão mais caras, atraindo o usuário para que sinta a melhora do seu bem-estar. Pensar alternativas de moradia para a vida toda, em especial na velhice, é uma medida urgente para que diminua a exclusão de pessoas vulneráveis economicamente, oferecendo futuros mais positivos aos jovens pela compreensão de que estamos vivendo mais e, portanto, podemos ser produtivos e felizes por mais tempo se houver moradias compatíveis com necessidades individuais.


