Cohousing: conceito ou estratégia de marketing?

O envelhecimento finalmente entrou na pauta. Ou virou oportunidade de mercado?

O fato de o tema ganhar espaço nas mídias e no debate público é, sem dúvida, um avanço importante.

Durante décadas, envelhecer foi tratado quase como um assunto a ser evitado socialmente. As cidades não foram planejadas para o envelhecimento, mas sim para corpos produtivos, velozes e independentes.

Os empreendimentos imobiliários pensados para famílias padronizadas, e a própria ideia de moradia foi reduzida, muitas vezes, a metragem, localização e valorização financeira.

Agora, pouco a pouco, começamos a discutir autonomia, convivência, pertencimento, cuidado e qualidade de vida ao longo do tempo.

O problema é que, junto com esse movimento necessário, também surgiu um fenômeno bastante previsível: a apropriação superficial de conceitos complexos transformados em discurso de marketing.

A postagem recente no blog Ser Modular da Prof. Dra. Maria Luisa Trindade Bestetti aborda essa temática com propriedade, trazendo o texto de Diego Félix Miguel (link), onde o olhar voltado a esta população, como potenciais consumidores, acaba muitas vezes estimulando discursos prontos, projetos genéricos e soluções vendidas como inovação social, mas sem compreensão real sobre envelhecimento, vida comunitária, participação coletiva ou desenho relacional dos espaços.

E talvez, o cohousing seja um dos conceitos que mais ganharam espaço recentemente, embora nem sempre acompanhado da profundidade e da compreensão que sua proposta exige.

E quando conceitos viram marketing?

Nos últimos anos, tornou-se comum ver projetos imobiliários, grupos de moradia e até iniciativas corporativas se apresentando como
cohousing.

Basta existir uma área compartilhada, uma proposta “humanizada”, um jardim coletivo ou um discurso sobre comunidade para que o termo apareça imediatamente.

Mas cohousing não é simplesmente juntar um grupo de pessoas para viver perto umas das outras. Também não é um condomínio com espaços comuns e uma ambulância na porta, nem um agrupamento de casas onde os moradores eventualmente interagem.

Cohousing é um modelo estruturado de convivência intencional, colaborativo, construído a partir de participação ativa, processos coletivos, horizontalidade na gestão e uma lógica comunitária muito específica. Quando esse conceito é reduzido apenas à estética da convivência, ou ao modismo alimentado por setores do mercado imobiliário que enxergam o envelhecimento e a vida comunitária apenas como uma nova vitrine de consumo, perde-se justamente aquilo que o torna potente. Não há problema algum em existir interesse econômico ou visão de mercado.

Empreender também faz parte da construção de soluções inovadoras. Mas, quando o lucro aparece desacompanhado de estudos sérios, escuta qualificada e participação de especialistas das áreas do envelhecimento, arquitetura, urbanismo e relações sociais, corre-se o risco de transformar uma proposta complexa e profundamente humana em apenas mais uma “fatia promissora” do mercado.

A intencionalidade por trás do cohousing

A origem do cohousing ajuda a entender essa diferença, e mais do que compartilhar infraestrutura, os primeiros grupos buscavam reorganizar a vida cotidiana de maneira mais colaborativa e socialmente conectada. O arquiteto Jan Gudmand-Høyer, uma das referências pioneiras no tema, defendia que a questão central não era apenas a arquitetura, mas a possibilidade de construir relações mais equilibradas e comunidades mais participativas. Sua expansão, desde então, assumiu formatos variados, preservando os princípios fundamentais: gestão compartilhada, participação dos moradores nas decisões, desenho arquitetônico voltado à interação e construção intencional de comunidade.

E é justamente aí que mora a principal distorção atual.

A escala altera o conceito?

Tenho observado um número crescente de iniciativas utilizando o termo cohousing sem compreender minimamente os processos necessários para sua construção. Em alguns casos, o conceito é usado apenas como uma camada discursiva sofisticada para valorizar empreendimentos tradicionais.

Em outros, ele aparece associado a projetos grandiosos, com centenas de unidades habitacionais, implantados em áreas enormes, muitas vezes reproduzindo exatamente a lógica de condomínios fechados convencionais. O problema não está no tamanho em si, mas no fato de que a escala altera profundamente as dinâmicas de convivência, participação e pertencimento.


Cohousing não se produz em massa.


Existe uma diferença significativa entre convivência espontânea e convivência estruturada.

Em grupos muito grandes, a tendência é que as relações se fragmentem, que a participação coletiva diminua e que a gestão se torne progressivamente mais burocrática e hierarquizada.

Isso não significa que projetos maiores não possam ter qualidade comunitária, mas significa que chamar automaticamente qualquer empreendimento coletivo de cohousing é, no mínimo, impreciso.

E talvez até irresponsável, pois seu fracasso certamente será atribuído ao modelo, alimentando frases do tipo: “Esse negócio funciona na teoria, mas na prática…”, e não à falta de conhecimento na estruturação, produzindo frustração social em torno de algo que nunca chegou a ser verdadeiramente experimentado.

O alerta se torna ainda mais importante quando observamos o contexto atual de envelhecimento populacional, onde o país está envelhecendo antes mesmo de resolver questões estruturais históricas relacionadas à habitação, mobilidade urbana, acesso a serviços e suporte comunitário.

Novas propostas de moradia voltadas à população idosa são bem-vindas. O problema começa quando o envelhecimento passa a ser tratado prioritariamente como nicho de mercado.

Cohousing exige processo


Essa talvez seja a parte menos compreendida (e menos vendável) do conceito. Porque processos levam tempo.

Eles exigem mediação, escuta, construção coletiva, negociação de conflitos, definição de valores comuns e alinhamento de expectativas. Não existe fórmula instantânea para pertencimento. Não se cria vida coletiva apenas adicionando espaços compartilhados em uma planta arquitetônica.

A arquitetura, evidentemente, tem papel central. O desenho dos espaços influencia encontros, convivência e uso cotidiano. Mas arquitetura sozinha não sustenta comunidade. Existem inúmeros exemplos de empreendimentos extremamente bem desenhados que nunca conseguiram consolidar relações coletivas significativas. Da mesma forma, há comunidades simples, sem grandes recursos, que desenvolvem fortes vínculos de apoio mútuo porque existe intencionalidade nas relações.

Em um momento histórico em que tantas pessoas envelhecem sozinhas, discutir formas mais coletivas de morar deixa de ser apenas uma questão arquitetônica e passa a ser também uma questão social, urbana e humana.

Talvez seja exatamente por isso que precisamos tratar o conceito com mais responsabilidade.

Comunidade não nasce pronta

Nem toda moradia compartilhada é cohousing.

Nem todo discurso sobre comunidade constrói pertencimento. E nem toda proposta voltada ao envelhecimento está, de fato, pensando nas pessoas que envelhecem.

Não raro, o que vemos é a transformação de uma questão profundamente humana em mais um nicho de mercado, revestido por discursos sensíveis e palavras atraentes. E isso deveria nos preocupar, porque envelhecer não pode ser tratado apenas como oportunidade de negócio, tendência imobiliária ou nova vitrine de consumo.

O envelhecimento merece escuta, responsabilidade e respeito à complexidade das relações humanas que o atravessam.

Em tempos em que tantas questões humanas acabam rapidamente transformadas em produto, discutir moradias voltadas ao envelhecimento com responsabilidade exige ir além das tendências, e incorporar conhecimento técnico, pesquisas consistentes e diálogo com especialistas que estudam o tema há anos. Sem isso, corre-se o risco de transformar necessidades humanas profundas em soluções superficiais, embaladas como inovação.

Que essa conversa continue ecoando. Até o próximo encontro por aqui!

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