É possível achar graça do fim?

Escrita por Fauzi Arap (1938-2013) e dirigida por Elias Andreato, a comédia A Graça do Fim “sensibiliza a plateia através da extrema simplicidade do cotidiano, representada em diálogos ácidos, divertidos e, por vezes, carregados de melancolia. Em uma surpreendente transformação, o ator Nilton Bicudo aparenta pelo menos vinte anos a mais, recorrendo, no máximo, a uma leve maquiagem e à cor branca no cabelo. Ele interpreta um senhor ainda lúcido e ativo impedido de viver sozinho pela família por causa das limitações da idade. Um cuidador (papel de Cleiton Santos) é contratado para vigiá-lo, para administrar seus remédios e mantê-lo sob controle.”

Com este fragmento da resenha de Dirceu Alves Jr. publicada na revista Veja digital (http://vejasp.abril.com.br/atracao/a-graca-do-fim/) fui ao Teatro Eva Herz assistir à história desse idoso que, se por um lado não se conformava em ser monitorado dentro da sua própria casa, por outro resistia em aceitar que cometia erros comprometedores quando estava sozinho. Aceitar um estranho determinando o que e como fazer no seu tempo livre ilustrou muito claramente como é conviver com um cuidador profissional quando não se considera uma necessidade, e o quanto esta situação acaba por criar uma nova perspectiva, já que o “intruso” torna-se um amigo e confidente, única companhia na hora final, quando a morte se manifesta e o idoso, confuso, resgata lembranças da esposa falecida.

Quando pensamos na contratação de cuidadores profissionais, essa decisão não prescinde da presença da família. Sou muito favorável à institucionalização quando há dependência, especialmente pela atenção de profissionais treinados mas também, é importante destacar, pela convivência com outras pessoas, mesmo que não haja aproximação, porque traz uma sensação de pertencimento mais eficaz do que a permanência em casa com estranhos à volta. Dependendo da capacidade cognitiva, muitos moradores esquecem que seus familiares os visitaram, e ficam com a sensação de abandono, o que causa sofrimento. Estar 30 minutos ou 5 horas em uma visita em casa tanto faz quando esse idoso continua aguardando e sente que a visita não vem. Se estiver numa residência coletiva haverá mais distrações, pessoas para compartilhar suas emoções, maior regularidade nas atividades rotineiras e uma variação de expressões de faces, tons de vozes e contatos físicos que podem tornar a experiência mais significativa. O fim em si não tem graça, mas a vida tem se houver mais o que fazer, ver, ouvir e ser ouvido. Mesmo que a memória traia, ainda assim haverá mais chances de rir nesta fase chamada velhice quando estamos incluídos e recebendo atenção.

 

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