Podemos descartar objetos significativos para guardar nossas lembranças somente na memória?

Assisti uma entrevista com Aracy Balabanian, atriz de 76 anos, no programa televisivo Ofício em Cena da Globo News, e surpreendi-me com uma declaração significativa, considerando a perspectiva em que foi abordada. Falou da experiência profissional e da sua trajetória de vida, sendo citado no final que antes dos 60 anos sofrera a perda total dos seus objetos pessoais em função de um incêndio no apartamento onde morava, lugar que considerava seu canto e onde guardava suas memórias. Repentinamente sentira-se sem história e considerou o evento como um segundo nascimento. A entrevistadora questionou que, se a partir disso havia uma nova pessoa, haveria também uma nova atriz. Surpresa com a pergunta, ela reafirma que sentiu-se renascida porque percebeu sua história até ali estar apenas dentro dela, mas que mudou o modo como viu a relação com as pessoas, pois antes resistia quando lhe era oferecido algo sobre o qual definia valor. O fato de ter perdido todos os seus livros levou-a a chorar muito quando precisou de um dicionário e uma amiga deu vários de presente, fazendo com que visse a transitoriedade das coisas e a efetividade das pessoas. Portanto, um novo modo de ver quem e o quê têm valor ao redor.

O que julguei mais tocante foi o fato de que nos apegamos às coisas pelo significado que damos a elas, especialmente aquelas que guardamos junto a nós, em casa. De fato, vemos mais do que valor material e tomamos aquilo como compensações pela passagem do tempo. Mas o que de fato permanece são as atitudes humanas que envolvem esses objetos, essas sim permanentes na nossa memória pela sua intangibilidade. O simbolismo relacionado ao lugar onde moramos reside especialmente pela relação que fazemos com o abrigo, o lugar da proteção e da segurança. Igualmente se amplia quando consideramos a presença dos entes queridos, que desejamos proteger. Quando não estão permanentemente lá, supostamente podemos preencher o espaço com lembranças da nossa história, a ponto de tornar-se uma acumulação desorganizada e sem critérios.

Os acumuladores podem ser pessoas com transtornos psiquiátricos, visto que muitas não conseguem descartar nem mesmo embalagens inúteis e isso afeta a higiene do lugar. Desfazer-se de objetos torna-se um sofrimento, pois consideram uma perda irremediável, tal qual perder um ente querido. Esta reflexão que ora compartilho não considera esse grupo, mas tem a finalidade de apontar o quanto o lugar que vivemos pode ser marcado por elementos da nossa história, importantes para acompanhar nossas mudanças em todos os momentos da vida. Se decidimos por uma residência coletiva para idosos, é preciso pensar na inserção de alguns objetos importantes, para que a história simplesmente não signifique um renascimento, especialmente quando a vida já é percebida na sua fase final. Aracy venceu o luto e manteve seus marcos importantes somente na memória, mas certamente não foi sem algum sofrimento.

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