Por que idosos preferem morar na rua mesmo quando têm algum apoio familiar?

Assisti recentemente o filme inglês intitulado A Senhora da Van (Inglaterra, 2015), com a ótima atriz Maggie Smith. O mote central foi a culpa em um acidente como motivo para fugir, esconder-se e assumir “famílias” com desconhecidos. A protagonista viveu em um convento austero e foi impedida de tocar piano, sua paixão de infância. Após um atropelamento, decidiu afastar-se de todos, mas tinha um irmão que manteve o apoio a ela quando o procurava. Ela vivia numa van, que estacionava em ruas residenciais e acabava amparada pelo moradores que, embora não a quisessem em suas portas, a mantinham solidariamente. Para não ter sua segunda van levada pelos órgãos reguladores da ordem pública, estacionou “provisoriamente” junto à entrada de um morador, permanecendo por 15 anos até morrer. A lição é que todos, de algum modo, aprendem com ela e criam vínculos significativos, especialmente pelo mistério de ela morar numa van e possuir uma cultura não condizente com aquela situação de desamparo.

O morador de rua idoso tem sido um sujeito frequentemente pesquisado em Gerontologia, em especial quanto ao atendimento de necessidades básicas que apresenta em períodos de temperaturas extremas e pela vulnerabilidade a riscos pela exposição em que se encontra. No município de São Paulo, o programa de acolhimento a esses indivíduos se dá em diferentes circunstâncias e, apesar de ainda ser insuficiente para a população existente, pode recebe-los em Centros-Dia, em Centros de Acolhida Especiais para idosos e em Instituições de Longa Permanência, respectivamente um acolhimento ao longo do dia para socialização, a manutenção em moradia provisória para a tentativa de reinclusão e a moradia definitiva, quando não há suporte social. A equipe de assistência social que faz a triagem dessas pessoas tem encontrado diversos casos com diferentes motivos de pessoas que abandonam carreiras, famílias e até patrimônio, tornando-se moradores de rua.

A última campanha de inverno demonstrou que muitos preferiram manter-se sob cobertores ao relento do que abandonar seus cães, embora tivessem a opção de serem acolhidos em barracas com camas de campanha. Outro elemento importante é o carrinho onde o catador deposita materiais que recolhe, que funciona tal como um armário itinerante. Percebe-se que os valores mudam e hábitos considerados imprescindíveis para pessoas “civilizadas” deixam de ser prioridade, tais como banhar-se, usar roupas limpas, dormir abrigado. Se percebemos isso como um desajuste social, visto que não segue o padrão da maioria, podemos refletir sobre a importância da moradia como referencia para aqueles que vivem em sociedade, sendo um marco fundamental para sua inclusão e pertencimento. Para aqueles que os fatos levam a decisões radicais, outros valores virão: companheirismo, território, liberdade… Criticar sem refletir sobre isso os torna ainda mais estranhos e incompreensíveis.

2 comments on “Por que idosos preferem morar na rua mesmo quando têm algum apoio familiar?

  1. OlÁ Professora. Me chamo Ana Cláudia e estou fazendo meu mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente na UFPI- Teresina-PI. Meu tema de pesquisa é idoso e mobilidade. Já li alguns artigos seus. Gostaria de manter contato com a senhora para acrescentar, com seus textos, minha pesquisa. Fiquei sabendo de seu blog através de uma amiga gerontologa, Amanda Fernandes, que me parece que foi sua aluna em SP. Abraço e boa noite

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    • Ana Cláudia, por coincidência ontem encontrei uma doutoranda com o tema relacionado ao seu, junto com a orientadora dela, a prof. Mônica Perracini, que é expert em mobilidade e quedas. Ambas estão muito interessadas nas questões de caminhabilidade na cidade (walkability). Agradeço o interesse pelo blog e conte comigo no que estiver ao meu alcance. Por curiosidade, qual a sua formação? A Gerontologia é tão fantástica que nos permite intercâmbios extremamente ricos… Abraços, aguardo seu contato.

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