Se vivermos intensamente, perderemos a noção do tempo enquanto envelhecemos?

O poeta Mário Quintana viveu até quase 87 anos e, apesar de solteiro e solitário, especialmente conhecido por andarilhar pelas ruas do centro Porto Alegre, deixou frases, poemas e crônicas construídos com humor refinado e repleto de sutilezas na linguagem. Em seus muitos livros publicados registrou textos com referencia à velhice e à morte, sendo que envelhecer estava atrelado àquilo que construímos ao longo da vida e que nos representa, marcando nossa passagem pelo tempo.

“Percebi que estava ficando velho quando meus amigos se tornaram nomes de ruas…”

Essa construção é feita de relacionamentos de qualquer natureza e estabelece um referencial sobre cada existência, determinando histórias, desejos comuns e resultados que passam a significar elementos marcantes de um lugar, demonstrando que legados são deixados quando há uma produção de qualidade ao longo da vida. Mas também o quanto são importantes as amizades consolidadas, os relacionamentos mesmo fugazes e a presença de pessoas nessa história construída coletivamente. Todos criam seus próprios caminhos, alguns paralelos e próximos….

“Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.”

Ao longo da história registrada de cada vida, muitos elementos se destacam como representativos, mas tudo se resume em um perfil definido por comportamentos que caracterizam essa existência. A cada momento há novas metas traçadas, novas cobranças impingidas, novos contratempos a serem resolvidos, pois os obstáculos não são desejados mas, apesar de esforços para evita-los, teimam em acontecer. Porém apresentam-se como desafios que podem ser difíceis, mas que demonstram claramente quais recursos estarão efetivamente à disposição: preparo profissional, equilíbrio emocional, presença de amigos e familiares, estratégias de transposição. Assim, a cada novo problema, um novo aprendizado, e a certeza de que a vida continua com intensidade.

“A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”.

Enxergar a morte como um fim temível ou como um perigo iminente só compromete a possibilidade de viver intensamente e acumular experiências. Mesmo pacato e recluso, Mário Quintana deixou essa ideia na sua vasta produção. Viveu como um colecionador de visões do cotidiano, sentado na praça da Alfândega, andando entre as barracas da Feira do Livro e passeando pela Rua da Praia, pontos no centro de Porto Alegre. Mais do que poesias, produziu profundas reflexões, fazendo pensar sobre o tempo que passa, mesmo quando as preocupações tentam, em vão, estendê-lo um pouco mais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.